Liberdade – Crónica de José Luís Peixoto

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Vem. Deixa tudo o que planeaste para o dia de amanhã e vem. Não são os teus planos que garantem a sobrevivência do mundo.

Children holding hands

Depois destas paredes, há campos, rios, montanhas, planícies, desertos; depois deste tecto, há o céu e o sol. Se vieres agora comigo, o mundo não vai acabar. Os prazos podem esperar, a vida não. Vem. Temos todos os oceanos para atravessar. Temos momentos suspensos no futuro, à espera que cheguemos para resgatá-los: um suco de açaí a caminho da mesa onde havemos de nos sentar  no  Leblon,  uma massagista tailandesa  a  aquecer  os  pulsos  e  a  espalhar  óleo  nas  mãos  que  se  vão  dirigir  às nossas  costas,  sol  em  Miami,  neve  em  Estocolmo,  chuva  grossa  e  regeneradora em São Tomé, bagos gordos de chuva  a rebentarem na terra fértil de São Tomé. Não encontro motivos  para   querermos  menos   do   que   o   máximo com   que podemos sonhar.  Vem.  O  telefone  irá  cansar-se  de  tocar  sem  que  ninguém  o  atenda.  A pilha  de  algum  aparelho  irá  gastar-se.   A  tua  secretária  será  como  aqueles terrenos  abandonados,  onde  começam  a  crescer  ervas  e  que,  ao  fim  de  algum tempo,  estão  completamente  cobertos  de  esquecimento  e  já  ninguém  se  lembra como eram antes. As canetas dentro do copo não vão sentir falta de ti. O relógio só tem poder se  lhe deres poder, se acreditares que  é poderoso. Por si só, o relógio  não é  capaz  de  nada.  Por  si  só, o  relógio  é  um  objecto  ridículo,  feito  de  plástico e materiais pobres, com a função ridícula de repetir: tic, tic, tic.  O tempo é outra coisa. Vem aproveitar o tempo.

Eu  sei,  eu  sei,  eu  sei.  Tens  mil  razões  que  não  te  deixam  aceitar  este convite.  Eu  podia  agora  pousar  todas  essas  razões  na  palma da  mão.  Se  as soprasse,  não  seriam  sequer  como  pó  porque  um  montinho de  pó  soprado haveria  de  espalhar  uma  nuvem.  Essas  razões  sopradas no  ar  seriam  apenas invisível em cima de invisível.  Vem.  Vem  agora.  Este  é  o  instante  exacto  em  que  apenas  precisas  de fazer  um  movimento  simples.  Levanta-te  da  cadeira  ou  dá  um  passo.  Não te preocupes  com  mais.  Depois,  no  instante  que  se  seguirá,  será  necessário outro movimento,   igualmente   simples.   E   saberás   sempre   qual   o   gesto   que   dará seguimento  ao  anterior.  Não é  difícil.  Deslocar-se  no  espaço  corresponde  a  uma sequência de gestos. O movimento é uma acção contínua.  Vem.  A  pessoa  que  serás  irá  agradecer.  Quando  encontrares  o  teu reflexo   num   lago   ou   num   espelho,   quando   reparares   naquilo   em   que   te transformaste, irás agradecer. Olhando para hoje, irás dar graças por, felizmente, teres sido capaz de tomar essa decisão. A vida não pode ser só isto, diz a voz que tens dentro de ti e que tentas abafar com fardos enormes de silêncio ou com uma mistura de vozes misturadas, como numa discussão em que todos querem falar. Vem.  Não  queres  envelhecer  à  espera.  Precisas  de  sentir  o  vento. Precisas de sentir o tempo. Não o tic, tic, tic, não a hora de entrar e não a hora de, finalmente, sair.  O tempo é outra coisa. Vem aproveitar o tempo.  Eu  sei,  eu  sei,  eu  sei.  Tens  mil  razões  que  não  te  deixam  aceitar  este convite.  Mas  vamos  acreditar  por  um  instante  que  podes  vir.  Vamos  acreditar por um instante que vens.

José Luís Peixoto

    José Luís Peixoto

 

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