Sopro – Crónica de José Luís Peixoto

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     Enquanto olha para lá longe, os cabelos ondulam-lhe na cabeça. Às vezes, durante um instante, alongam-se, ficam estendidos no ar. Não sei se ela sente esse movimento, não sei se repara nele, a solenidade tranquila do seu rosto não permite essa conclusão. Não seria capaz de perturbar esta hora para lhe fazer essa pergunta. Além disso, também eu não quero interromper o tempo em que a observo, não quero interromper os seus cabelos levados pelo vento, sensíveis à mínima força.

     É vento português que a toca. É ar em movimento, é esta matéria que nos rodeia, que sentimos se a agitarmos com um leque, com uma revista, esta revista, ou mesmo com a palma da mão. É esta matéria em que pensamos pouco, que tendemos a não sentir, mas que respiramos com ritmo regular. É este ar limpo que nos renova quando precisamos de inspirar fundo, quando precisamos de nos agarrar à vida.

     Bem sei que o vento atravessa fronteiras sem as reconhecer. Nasce aqui ou nasce lá, do outro lado, e faz este caminho com facilidade aparente. Mas não é assim com toda a natureza? Será o mar mais português? Será a terra mais portuguesa?

     A luz, toda a gente fala da luz de Portugal, a luz de Lisboa em maio, a luz do Douro ao fim da tarde, são muito poucos os que falam do vento. Com a excepção de moleiros e surfistas, quase nenhuns se deslocam por vontade de aproveitar o vento. E podiam fazê-lo, seria tão lógico como outra razão turística qualquer. Vale a pena fechar os olhos e sentir o vento, não há outra mão que seja capaz de nos tocar daquela maneira. É também ele que transporta os cheiros, perfumes doces e azedos, simples e complexos; e, já se sabe, os cheiros são histórias, são lembranças repentinas de muito que esquecemos e que, num instante, regressa com todas as cores.

     O vento, a ventania, a brisa, a aragem. Pergunto-me se apreciaremos o vento com a atenção que merece. Esse é o trabalho de reparar naquilo que é menos óbvio, valorizar o invisível. Ao mesmo tempo, é sentirmo-nos a nós próprios em todos os lugares onde estamos.

     Sim, o vento é o presente. O vento é estarmos aqui e haver este caminho que nos rodeia, corrente de um rio que não vemos e que nos leva. Tantas são as forças que, assim, dessa exacta maneira, nos convencem a seguir esta ou aquela direcção. Às vezes, quando nos cansamos de tomar decisões, deixamos que o vento responda, para um lado ou para outro, e toda a nossa vida teria sido diferente consoante essa resposta.

     Nos países, o vento existe onde está o imaterial. A música mistura-se com o vento, as ideias também. Às vezes, é preciso coragem para aceitar a importância do que não se vê, mas que está lá. Essa é uma forma de reconhecer que, mesmo quando não sentimos o vento, quando não o vemos, ele não deixa de nos ver a nós.

     Em silêncio, muito devagar, sem que ela note, aproximo o meu rosto e sopro-lhe a face. Há uma interrupção suave no tempo, estamos os dois neste preciso momento, neste preciso lugar. E há um instante que não passa. Ela olha para mim e sorri.

JOSÉ LUÍS PEIXOTO

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