Maio de 68: Portugal seis anos antes de Abril

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A exoneração de Oliveira Salazar e a entrega do Governo a Marcelo Caetano, que prometeu “renovação na continuidade”, marcaram 1968, num Portugal que continuava em ditadura e em guerra, seis anos antes de Abril.

O ano de 1968 foi o que antecedeu as eleições para a Assembleia Nacional e a crise académica de Coimbra, com greve aos exames, manifestações na rua e cargas policiais, foi o ano que se seguiu às cheias de Lisboa, com os seus 700 mortos e um milhar de desalojados, numa só noite, revelando um universo de miséria, que a ditadura tentava ocultar.

O mês de maio, em França, chegou às primeiras páginas dos jornais portugueses no dia 07, quando os estudantes bloquearam o Boulevard de St. Germain, em Paris, mas os acontecimentos que se prolongaram durante semanas nem sempre voltaram a ser notícia.

Portugal, porém, teve as primeiras manifestações contra a Guerra do Vietname em 1968, que foram também continuação do protesto contra a Guerra Colonial, e a contestação ao regime intensificou-se nas universidades, com o “maio francês” por referência.

Exilado em França, Júlio Pomar pintou, nesse ano, “Le Bain Turc”, para o Louvre, no âmbito da futura homenagem a Ingres, e compôs a série “Mai 68 CRS SS”, sobre as barricadas em Paris e as cargas da polícia francesa (CRS).

Em Portugal foi realizado o Salão de Vanguarda, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, e Ana Vieira e Eduardo Batarda fizeram as primeiras exposições individuais. No Porto, nasceu o grupo “Os Quatro Vintes”, dos artistas plásticos Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues e Ângelo de Sousa, e a Galeria Dominguez Alvarez e a Biblioteca Municipal de Amarante assinalaram o cinquentenário da morte de Amadeo Souza Cardoso.

Nas letras, foram publicados os livros “A Madona”, de Natália Correia, “O Delfim”, de José Cardoso Pires, “O Tesouro”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, “Vertentes do Olhar”, de Eugénio de Andrade, “De Noite as Árvores São Negras”, de Maria Isabel Barreno, e “Os Amantes”, de David Mourão-Ferreira.

“Conversas com Versos”, de Maria Alberta Menéres, abriu a coleção Cabra-Cega de literatura infantil, que prosseguiu a atividade das edições Afrodite/Fernando Ribeiro de Mello, bloqueadas com processos judiciais, pela publicação de livros como a “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia, e “A Filosofia na Alcova”, de Marquês de Sade.

O suplemento &etc, coordenado por Vítor Silva Tavares para o Jornal do Fundão, celebrava um ano de vida.

Em 1968, tiveram início as emissões da RTP2, foi criada a Telescola, inaugurada a Universidade Católica Portuguesa, e o cardeal Cerejeira afastou o padre Felicidade Alves, que estivera em Paris, da paróquia de Santa Maria de Belém, depois da publicação das “Perspetivas atuais de transformação nas estruturas da Igreja”.

O ano de 1968 foi também o da greve na Carris e dos trabalhadores ferroviários, dos pescadores de Matosinhos, dos conserveiros e cordoeiros, em todo o país, e aquele em que os operários da Lisnave voltaram a parar.

Foi criada a Esquerda Democrática Estudantil, na sequência das primeiras manifestações contra a guerra do Vietname, seguindo-se o Movimento da Juventude Trabalhadora e o Movimento Democrático de Mulheres.

Em agosto, a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) tentou ocupar a Covilhã, com o objetivo de criar “zonas libertadas”. Portugal somava 42 anos de ditadura, 35 de Constituição do Estados Novo e 40 de permanência de Salazar no Governo, primeiro como ministro das Finanças, depois como presidente do Conselho de Ministros.

A polícia política – Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) –, a censura e a proibição de partidos políticos, a ausência de liberdade de reunião, de direito à greve e de manifestação eram realidades.

Em fevereiro, em Lausanne, o Movimento Suíço de Amnistia aos Presos e Exilados Políticos Portugueses fez um encontro de solidariedade e denúncia.

Em março, Mário Soares, advogado antifascista, foi preso e condenado a deportação, para S. Tomé e Príncipe.

A guerra colonial, que começara em 1961, em Angola, mantinha Portugal isolado nas organizações internacionais.

As Nações Unidas, que viriam a reconhecer os movimentos de libertação e a independência da Guiné, antes de 1974, aprovou a Resolução 2395 que condenava a violação da integridade territorial e da soberania dos Estados africanos, sob administração portuguesa, os seus direitos económicos e políticos, assim como a colaboração do Governo de Lisboa com os regimes da ‘apartheid’ da África do Sul e da Rodésia. Apenas Portugal, Brasil e África do Sul votaram contra.

Nesse ano de 1968, três após a adesão à UNESCO, a organização exigiu igualmente ao Governo português o abandono da política colonial, como condição prévia para a cooperação. Portugal viria a abandonar a estrutura, a que só regressou depois do 25 de Abril.

Em abril, quando assumira a pasta da Defesa, Oliveira Salazar disse, no seu discurso: “A Europa ri-se do paternalismo [português] para com certas raças ainda não evoluídas e do espírito missionário, porque, de facto, não acredita já na sua missão civilizadora, como não acredita na superioridade da sua civilização. Mas nós continuamos a acreditar”.

A queda do ditador aconteceu de uma cadeira, na noite de 03 de agosto, no Forte de Santo António, no Estoril.

Um mês depois, a 07 de setembro, foi operado a um hematoma subdural e só então as notícias do seu estado chegaram à imprensa.

Tiveram de passar mais 20 dias até à sua exoneração e à entrega do Governo a Marcelo Caetano, e mais dois anos até à sua morte, em julho de 1970, durante os quais os dirigentes do regime mantiveram a ilusão do poder ao ditador.

Marcelo Caetano prometeu “tolerância de ideias”, sem, porém, a “estender ao comunismo”. A mensagem deu azo à designação de “primavera marcelista”, mas a ação governativa, como o próprio presidente do Governo prometera, manteve a “integridade do território nacional”, a guerra colonial, o partido único e a PIDE, que passou a designar-se Direção-Geral de Segurança.

O programa de Governo, apresentado em novembro, previa o fim do condicionalismo industrial de Salazar e falava num “estado social corporativo”, que ampliou assistência a funcionários públicos e alargou o regime de pensões a trabalhadores rurais. A lei eleitoral alargou o universo dos eleitores de chefes de família letrados, aos cidadãos portugueses que soubessem ler e escrever.

As manifestações de estudantes em Coimbra tiveram início em novembro e manteriam o clima de protesto até abril do ano seguinte, quando eclodiu a crise académica e foi decidida a greve aos exames.

No Instituto Superior Técnico, em Lisboa, a ‘Sonora’ da Associação de Estudantes difundia, desde maio, com mais insistência, música de intervenção, em particular canções de José Afonso e de Luís Cília.

No dia 07 de dezembro, a PIDE fechou o estabelecimento de ensino. Foi decretado o “luto académico” com que se entrou em 1969.

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