História da Emigração em França destaca envio de trabalhadores e xenofobia

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Os emigrantes portugueses em França foram alvo de xenofobia durante os anos 1930 sendo que milhares foram despedidos dos locais de trabalho, expulsos e impedidos de regressar, disse à Lusa o historiador Victor Pereira.

“Temos aquela ideia dos portugueses integrados na sociedade francesa. Mas os portugueses foram das principais vítimas da xenofobia dos anos 1930, tal como os polacos, espanhóis ou italianos. Nessa época, devido à crise não havia trabalho, muitos foram expulsos e muitos não conseguiam papéis e não puderam voltar a território francês”, disse à Lusa Victor Pereira.

O investigador da Universidade de Pau et des Pays de l’Adour, em França, autor do livro “A Ditadura de Salazar e a Emigração” está a preparar um novo livro sobre a História da emigração portuguesa em França.

A nova investigação que começa na Primeira Guerra Mundial e que se prolonga até à atualidade deve estar concluída no final de 2018 e vai ser publicada em França.

O novo livro é “uma tentativa de síntese” sobre a emigração portuguesa em França, da Primeira Guerra Mundial até aos nossos dias e que realça as consequências do Acordo de Trabalho firmado entre Lisboa e Paris no mesmo ano em que os militares portugueses são enviados para território francês.

“Eu começo em 1916. Pensa-se muito nos 50 mil soldados portugueses que foram combater em França, mas em 1916 quando Portugal começou a desenvolver esforços para entrar no conflito os franceses pediram mão-de-obra”, recorda o historiador.

No conjunto das negociações sobre a entrada de Portugal no conflito Lisboa aceitou um Acordo de Mão-de-Obra, “a contragosto”, e o envio de entre a 15 a 20 mil operários com contratos de seis meses, sobretudo para fábricas.

“Consegui encontrar cartas, fotografias desse período que foi o início da emigração portuguesa em França. Os portugueses nessa altura iam para o Brasil ou para a Venezuela. A França não era vista como um país de emigração”, afirma o historiador.

O investigador destaca também que nos anos 1920 mais de 75 mil portugueses foram para França – a maior parte homens oriundos do norte de Portugal – e que encontram emprego na construção civil em cidades como Rans, destruída durante a Grande Guerra, e em Paris.

“Estou a dedicar-me muito aos dados de 1920 e 1930 porque há ainda pouca investigação sobre esse período em que os portugueses se começam a fixar nos bairros de lata, na periferia de Paris”, explica o historiador que está a consultar novas fontes nos dois países assim como tenta recolher fotografias da época e a registar memórias na primeira pessoa.

“Eu tenho, por exemplo, depoimentos de uma lusodescendente de 88 anos, filha de um desses trabalhadores portugueses que emigraram para França nesse período”, refere.

Segundo o historiador, em 1931 havia 49 mil portugueses em França, mas em 1936 o número desce para 28 mil devido à crise e ao desemprego e às consequências da xenofobia contra os trabalhadores estrangeiros.

“Quando chega a crise, a Administração francesa não distingue os portugueses e muitos deles não conseguem ficar em França por falta de trabalho”, frisa.

Entre outros aspetos, a nova investigação de Victor Pereira investiga também a presença de portugueses pelo campo de concentração de Gurs, em 1941 e 1942, perto da cidade de Pau.

O campo tinha sido instalado para “acolher” parte de membros das Brigadas Internacionais que apoiaram os republicanos durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e que se refugiaram em França após a vitória das forças franquistas.

O historiador consultou para o efeito muitas das cartas que os prisioneiros portugueses enviavam para Portugal, mas que eram aprendidas pela polícia política do Estado Novo (PVDE).

“Pelo campo de Gurs passaram mais de 300 portugueses. Durante a ocupação nazi muitos judeus estiveram no mesmo campo incluindo a filósofa alemã Hannah Arendt”, indica o historiador.

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