Clara Menéres: “Uma artista de referência no panorama das artes”

0

A escultora Clara Menéres, que morreu na passada quinta-feira, em Lisboa, “foi uma artista de referência no panorama das artes e do ensino artístico em Portugal”, afirma o ministro da Cultura, numa nota de pesar.

“Entre a escultura e a intervenção de arte pública, a obra de Clara Menéres reflete sobre temas da existência humana e dos mitos etiológicos, criando um diálogo entre a ancestralidade e a natureza”, lê-se na mesma nota.

“A sua obra, com inspiração em referências existenciais e religiosas, era simultaneamente um gesto de intervenção cultural, social e política”, afirma Luís Filipe Castro Mendes, referindo que a artsita “acompanhou o nascimento da democracia portuguesa e a abertura do país às artes, ao conhecimento e à liberdade de criação e de pensamento”.

Castro Mendes refere que após a Revolução de Abril, em 1974, a escultora desenvolveu um “percurso académico e de investigação, e desenvolveu as suas teses em etnologia e estudos visuais, em França e nos Estados Unidos, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana”.

“Artista, pedagoga e investigadora, Clara Menéres deixou um imenso legado na produção e na investigação artísticas, tendo-se consagrado nos contextos culturais e académicos do país”, remata o ministro, recordando que a artista se licenciou na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1968, e “começou a expor individualmente desde cedo, e produziu ao longo de toda a sua vida”.

Numa homenagem à artista, a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) – onde Clara Menéres foi professora, e onde exerceu o cargo de presidente do conselho diretivo de 1993 a 1996 – recordou que os temas que dominaram a sua obra escultórica foram os mitos fundadores, cultos solares, aquáticos e essencialmente de fecundidade, a alegoria da morte, a intervenção cívica, as reflexões científicas e filosóficas, e temáticas bíblicas.

Segundo fonte familiar a última peça de sua autoria é a estátua do papa João Paulo II, inaugurada na Páscoa passada, numa rotunda da cidade da Maia, nos arredores do Porto.

Maria Clara Rebelo de Carvalho Menéres nasceu em Braga, a 22 agosto de 1943, estudou escultura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde foi aluna de Barata Feyo, Lagoa Henriques e Júlio Resende, tendo concluído a licenciatura em 1968.

Expôs individualmente pela primeira vez em 1967 e foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, entre 1978 e 1981, doutorando-se na Universidade de Paris VII em 1983.

Foi também investigadora do Center for Advanced Visual Studies do Massachusetts Institute of Technology (MIT) entre 1989 e 1991.

Iniciou a atividade pedagógica na Escola Superior de Belas Artes do Porto e, entre 1971 e 1996, foi professora da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde exerceu o cargo de presidente do conselho diretivo de 1993 a 1996.

Foi depois professora catedrática na Universidade de Évora, onde lecionou de 1996 a 2007.

Uma das suas obras mais conhecidas é “Jaz Morto e Arrefece”, uma representação escultórica realista de um soldado morto com a farda da guerra colonial, inspirada no poema “O Menino de Sua Mãe”, de Fernando Pessoa, apresentada pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, em 1973, antes da queda da ditadura.

Esta obra pode ser vista atualmente na Fundação Calouste Gulbenkian, na exposição “Pós-Pop. Fora do lugar comum”, entre outras peças da autora, que também está representada na coleção desta instituição.

Na sua obra destacam-se ainda “Mulher-Terra-Viva” (1977), “A grande espiral” (1988), o “Monumento ao viajante”, em Guimarães (1991), “Monumento a Willy Brandt”, Porto (1993), e o “Monumento a Salgueiro Maia”, Castelo de Vide (1994).

Nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian encontram-se “Papisa” (“Coincidentia Oppositorum”), de 1983.

Em 2016, o Santuário de Fátima assinalou o encerramento das celebrações do Centenário das Aparições do Anjo da Paz com a inauguração de uma escultura em bronze – “O Anjo da Paz” – da autoria de Clara Menéres.

Também no Santuário de Fátima se encontra, desde 2000, uma imagem da jovem pastora Jacinta, canonizada pela Igreja Católica em maio passado, da sua autoria.

Entre várias exposições coletivas, participou na Alternativa Zero, Galeria Nacional de Arte Moderna, em Belém, em 1977, na XIV Bienal de S. Paulo, no Brasil, no mesmo ano, na exposição “Anos 60, anos de rutura: uma perspetiva da arte portuguesa nos anos sessenta”, na Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura.

Individualmente, entre outras, exposições, apresentou o seu trabalho em Portugal, em Lisboa, Porto e Aveiro, e nos Estados Unidos, em várias cidades, nos Estados de Nova Iorque e do Massachusetts.

Partilhar.

Comments are closed.