II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris

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II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris

A Colectânea de Poesia Lusófona em Paris era um sonho baseado numa forma singular de coabitarmos com a realidade que camuflamos, esperando que a pedra filosofal fosse a cor do nosso mundo, pelas mãos de uma criança que acabou por nascer e dar fruto a um grupo de mais de oitenta poetas naturais ou residentes de/em sete países, no seu primeiro volume, e agora, no segundo volume, a 107 poetas de doze países, pela chancela da jovem, mais ambiciosa, Portugal Mag Editora.

Vivemos circundados de desejos, de anseios, de sementes ofuscadas e de anelas clandestinas, infindavelmente com o objectivo atónito de atracar no ancoradouro dos nossos sonhos.

Envolvemo-nos de incertezas, galgamos os vales de montanhas imaginárias e deixamo-nos arrastar pela rudimentar quimera que se enovela em nossos pés e nos faz tropeçar.

Devaneamos, ensaiamos enganar o intuito, mesmo de olhos bem abertos, e soltamo-nos à agitação da aparência almejando avassalar o sonho que habita no horizonte sublime.

Partimos para conquistar o sonho desejado, confrontamo-nos com o paredão da dificuldade, com o muro da desilusão e com a muralha da frustração que nos fazem angariar revoltas… Sublevações que nos obrigam a semear sonhos pelas valetas do asfalto que vamos deixando para trás.

A grandiosidade do sonho, quando infesta a reflexão, torna-nos grandiosos dentro do nosso alguidar de concepções, como vincou Friedrich Hölderlin (1770-1843): O Homem, quando sonha, é um deus, quando reflecte, é um mendigo.

Porém, um renovado sonho, mesmo no nosso ínfimo e recôndito ser, rejuvenesce-nos e arremessa-nos para mais um atalho de procura.

Afiançamo-nos, sempre, na realização dos sonhos, mesmo os que parecem irrealizáveis. Jamais nos enfadamos de sonhar e chegamos mesmo a sonhar sobre os nossos sonhos.

Tal como escreveu Fernando Pessoa (1888-1935), no seu Livro do Desassossego: De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono em sonhos em que estamos despertos.

Sonhar faz parte da utopia da nossa vida. Sonhamos para nós e fantasiamos para os outros.

Lançamos na terra dos sonhos a semente desta II Colectânea e ambicionamos observá-la a crescer. Porque, nessa terra, como canta Jorge Palma, podemos ser nós próprios porque ninguém nos leva a mal.

Nessa terra sonhamos de livre vontade, projectamos os nossos sonhos para cima de uma mesa plantada numa fajã de delírios como se de um banquete se tratasse.

Na terra da imaginação plantamos a árvore dos sonhos. Regamo-la, podamo-la e quando esta conceder a flor começaremos a arquitectar uma escada, de preferência segura, sem degraus adulterados ou superiores ao que a nossa perna abarca. O fruto nasceu… Agora, ascenderemos para colher cada um dos sonhos que irá pintalgando a copa da árvore.

Como na vida, a árvore da II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris só nos outorgará frutos se a compreendermos e soubermos conservar. Estimando-a, protegendo-a das intempéries e salvaguardando-a de utopias que converteram os sonhos em cobiças e não se importam de derribar a mais humilde árvore na exploração do arvoredo da ganância e da inveja.

A fim de impedir que o sonho esporeie o bilhete da vida no garrote do pesadelo, devemos agarrar a nossa árvore e coadjuvá-la no seu crescimento. Se esta tiver de sucumbir que seja de pé, sem se vergar aos estereótipos da fantasmagoria compulsada por concepções malévolas.

Porque, vaguear pela Lusofonia faz-nos pensar, imaginar e mesmo sonhar com a Cultura que fortifica as raízes de um povo. Faz-nos adormecer pela poesia do vento, embalado pelas nuvens do sonho.

Por isso, escrever é algo mais do que espalhar letras, entornar palavras ou construir frases. Escrever é transmitir ideias, é concretizar desejos, é realizar sonhos, é prolongar a firme voz de comunicar. Escrever é cunhar identidade pela diversidade cultural que une países, regiões, cidades e aldeias.

O Padre António Vieira (1608-1697), referido por Fernando Pessoa como o Imperador da Língua Portuguesa, deixou gravado na sombra do Oceano da Lusofonia que um Livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.

A Lusofonia que se espalhou ao longo dos séculos e inundou Continentes, continua bem viva através das sementes que todos os dias se lançam ao vento, na esperança de um dia germinarem e darem os seus frutos.

Foram imensos os homens e mulheres que muito deram às Letras da Lusofonia, que espelharam as suas palavras e as suas frases no reflexo de oceanos de letras.

A II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris é mais uma laje na senda do engrandecimento da Língua Portuguesa, tenha ela ou não algemado um acordo ortográfico. Essa elevação consagra-se a todos os Poetas que se congregam a este projecto. Que acreditam. Que o entendem. Que o acarinham…

É um desígnio, como desde o início foi arcado, que tem como finalidade a promoção dos Poetas e a Língua Portuguesa. Só isso nos possibilita melhorar edição após edição.

A todos os Poetas, mais ou menos eruditos, mais ou menos doutos, temos que agradecer e autenticar o respeitante valor. Agraciar, não apenas com palavras, mas também com acções. É, essencialmente, um projecto de Esperança…

Incansavelmente içamos a bandeira da Lusofonia no mastro da Literatura, almejando que a alucinação das nuvens que telham o azul do céu, nos sirvam o sonho de bandeja.

Quando idealizamos, esperançados na conquista da promoção da Língua Portuguesa, conseguimos exaltar as nossas ambições e derreter o lacre de todas as muralhas que continuamente surgem no nosso caminho.

É um curso longo a percorrer…

Com a Lusofonia acondicionada na algibeira do pensamento, sempre preparada a ser usada, vamos arremetendo o isco ao nosso âmago com a ascensão da nossa Língua, seja promovendo os grandes nomes da Literatura Lusófona ou lançando ao rio da Cultura as nossas ideias, os nossos pensamentos, os nossos poemas, como pescador que horas a fio vai acreditando e amparando a esperança de um peixe pescar. Mas, mesmo para pescar, é terminante aprender a esperar, sem desbaratar a esperança, como abrigava o poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio (1817-1901) no delineamento da sua pena: Ensinai a esperar; porque com a isca da esperança tragamos o anzol da vida.

A Lusofonia é muito mais do que países físicos. A Lusofonia não pode estar limitada a fronteiras. Tem de deixar marcas, não como barco que desenha no oceano o seu rasto em direcção ao horizonte, mas sim, vincar na pedra cultural a nossa rota, rumo à certeza, como os caminhos de Lu Hsun (1881-1936): na terra não havia caminhos; foram feitos pelo grande número de passantes.

A II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris é o encontro entre diversos poetas de variados e longínquos países, onde a distância é apenas terrena. É a união da Língua que consegue galgar todas as barreiras. É o encontro de todos aqueles que falam Português, independentemente da sua ideologia política, religiosa, cultural ou social.

É a Lusofonia Poética que Cecília Meireles (1901-1964) defendia como um espaço para publicação de música e de poesia de poetas da Língua Portuguesa. É o encontro do mesmo idioma, mas de cores variadas.

É neste horizonte de união, de encontro, que a II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris pretende levar, o mais longe possível, as mensagens que os poemas dela transbordam.

Esta é uma Colectânea que até pode ser a Última flor do Lácio, como Olavo Bilac (1865-1918) defendia a Língua Portuguesa. Mas será, sem desprimor, mais uma pequena raiz a vingar no solo da incerteza. Uma raiz que dará a sua planta, flor e fruto e conseguirá contender contra todas as intempéries.

Por isso, é que existe este encontro, esta união entre todos os Poetas que abraçam este projecto.

A II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris é de todos vós, Poetas. É de todos aqueles que honram e louvam a Língua Portuguesa.

E, enquanto admitirmos que vale a pena altercar pela Língua Portuguesa, como advogou Fernando Pessoa, devemos ter esperança porque as angústias mais cerradas deixam sempre clareira alumiada por uma réstia de esperança, como decretou o punho de Camilo Castelo Branco (1825-1890).

Sonhamos e conseguimos, com todos os autores, levar bem longe este projecto que já une Continentes sem pensar em raças ou religiões, mas sempre a criar laços que se unem e transformam na grande árvore da Língua Portuguesa que é a Lusofonia. Porque O mar da minha vida não tem longes como enalteceu o poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971).

Por isso, a II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris é mais um sonho nesta rede que pesca poesia. São mais de cem poetas oriundos de doze países, que através do seu punho lançam ao vento da Cultura a sua obra poética.

Parabéns à Portugal Mag Editora, nas pessoas dos amigos Frankelim Amaral e Pedro Antonio, pela coragem do projecto e pelo convite que me foi dirigido. Abraço forte de puro agradecimento a todos os poetas participantes. Esta Colectânea é vossa…

Adélio Amaro Coordenador da II Colectânea de Poesia Lusófona em Paris

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