Paulo Marque, o Homem, o Autarca, o Político e os seus 27 anos de investimento na participaçao Politica

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Portugal Magazine encontrou-se com Paulo Marque, autarca de Aulnay-sous-Bois e Conselheiro Territorial de Paris para uma entrevista exclusiva onde ficamos a conhecer melhor o português que foi considerado como o timoneiro da participação Cívica e Política desde à 27 anos.

Paulo Marques nasceu a 13 de Janeiro de 1970 em Champigny sur Marne. É quadro comercial com formação de ciencias económicas. Fez o seu serviço militar na secção técnica das Forças Armadas Terrestres. Foi novamente eleito nas ultimas eleições autarquicas em Aulnay-sous-Bois com a delegação das Relações Internacionais, preside o Conselho das Comunidades Portuguesas de França, preside a Associação de Autarcas de Origem Portuguesa CIVICA e a Associação Culture Portuguesa e Rosa dos Ventos de Aulnay-sous-Bois.

Paulo Marques cresceu com os seus irmãos no movimento associativo Português de Aulnay-sous-Bois. Os pais, co-fundadores da Associação Cultura Portuguesa e Rancho Rosa dos Ventos de Aulnay-sous-Bois em 1973 permitiram, através da actividade associativa, uma forte ligação a Portugal dos irmãos Marques (Dj Albert, ex-locutor da Radio Alfa e empresário na área dos eventos e comunicação e Dj Bruno, animador em varios eventos e Dj no restaurante Ilha Tropical).

Todos os que conhecem a familia Marques, testemunham de uma forte união entre eles.

Paulo Marques foi também o fundador do mítico grupo de danças dos anos 90, os RDV Boys (RDV para Rosa Dos Ventos) onde, mais uma vez, a Portugalidade estava patente e o espírito de família presente. Esse grupo de dançarinos tipo « boys band » deu uma nova visão da juventude lusa aparecendo semanalmente no canal 1 da TV Francesa.

Paulo Marques decide candidatar-se às eleições autarquicas de 12 e 19 de março de 1989 em Aulnay-sous-Bois com apenas 19 anos. Esse momento foi considerado pelos observadores franceses e portugueses, como período da primeira intervenção cívica e política da comunidade Portuguesa. Como uma maneira de agradecer os sacrificios dos pais, avôs e portugueses em geral, nunca mais deixaria as lutas eleitorais com o mesmo dinamismo do início.

Paulo Marques teve dois mandatos consecutivos, os de 1995 e de 2001 interrompidos depois de ter perdido por 204 votos as eleições de 2008. Finalmente Paulo Marques integra novamente a lista de centro-Direita de Bruno Beschizza alcançando o melhor resultado de sempre com mais de 60% dos votos. Com o mesmo impulso, Paulo Marques recandidata-se ao Conselho das Comunidades Portuguesas a 6 de setembro de 2015, obtendo um exelente resultado, alcançando 50% dos votos em três listas.

Em Junho passado, Paulo Marques foi nomeado para o Conselho de Opinião da RTP.

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Paulo Marques, nesta sua longa actividade política e associativa, onde exerce varias funções, também é uma pessoa muito ligada às suas raízes. Fale-nos um pouco de onde é de Portugal e quais as ligações que continua a ter com Portugal?

Tenho efectivamente uma ligação forte às minhas raizes. Os meus pais são oriundos da freguesia de Espite Ourém. Concretamente, a minha mãe do Vale do Freixo e o meu pai do Areiro. Ourém fica a 11 Km de Fátima. Todas as minhas férias, quando era criança e adolescente, eram passadas na terra dos meus pais. Era um lugar que adoravamos, os meus irmãos e eu. Tinhamos a sorte de ter a casa dos meus pais a 50 metros da casa dos meus avôs paternos que permitiu uma forte ligação com eles. Foram momentos de juventude de muita alegria e que fortaleceu o meu amor ao território dos meus antepassados.

A minha ligação continuou com o movimento associativo Português em Aulnay-sous-Bois. Tive assim a oportunidade de descobrir a cultura, a música e as tradições de Portugal. Foi também nessa cidade de Seine-Saint-Denis que aprendi o português nas aulas associativas e no colégio francês.

Foi com esses alicerces que a minha ligação a Portugal aumentou. Tive rapidamente noção que era do nosso dever, nós, jovens filhos de portugueses nascidos em França, de participar ativamente nas organizações que premitem dar voz aos portugueses de França. Considerei e considero que a minha geração têm um dever de memória e foi essa noção que me levou a fazer política em França e em Portugal, para dar algum tempo para o reconhecimento dos sacrificios dos nossos pais, para que os filhos possam ter uma vida melhor. Foi assim que decidi dedicar algum tempo à política. Dedico algum tempo ao Conselho das Comunidades Portuguesas com uma primeira eleição aos 22 anos.

Finalmente a minha ligação a Portugal é familiar, profissional e política. Nas minhas últimas férias, percorri perto de 3.000 kms. Gostamos de descobrir novas terras, novas tradições e novos ambientes.

Durante este mês de Outubro, estarei dias 5 a 9 em Lisboa a acompanhar a delegação de 71 membros da « Association des Maires d’Île de France » em visita de estudo à capital portuguesa. Com o Presidente Stéphane Beaudet, iremos festejar 10 anos de cooperação entre a CIVICA e a AMIF. E no fim do mês, são os autarcas de origem Portuguesa da CIVICA que estarão em Lisboa, Sintra e Cascais.

Já que nos fala da Associação de Autarcas de Origem Portuguesa, a CIVICA, diga-nos quais são os seus objectivos e as suas ações ?

A CIVICA foi fundada à 16 anos no Senado Françês para fomentar a participação cívica e política da Comunidade Portuguesa em França com as primeiras eleições onde os portugueses podiam votar e serem eleitos.

Hoje, a associação Cívica intervem na educação cidadã com três orientações. A de apoiar e intervir nas escolas, colégios e liceus. A segunda consiste na educação pela aprendizagem que consista numa aula de educação cívica pela descoberta da função com os « Conseils municipaux » dos jovens e das crianças. Finalemente, a educação cidadã pela informação com o Fórum CIVICA e a concepção de campanhas de informação que funciona desde a sua criação com spotes televisivos e outros suportes.

A Associação CIVICA evoluio com a criação de delegações territorias em todo o território nacional e até na “Outre-Mer”. O seu congresso anual permite reunir os membros da organização, as delegações e validar a criação das mais recentes num momento de partilha de experiências.

De 20 a 22 de Outubro, 46 membros da CIVICA deslocam-se a Lisboa e Cascais para uma visita de estudo onde vão ser recebidos pelo Presidente da República, o Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa; pela Câmara Municipal de Lisboa e seu Vereador das Relações Internacionais, Dr. Carlos Castro ; pelo Presidente da Câmara Municipal de Cascais, o Dr Carlos Carreiras; pelo Deputado Carlos Gonçalves, Presidente do grupo e amizade Portugal-França; pelo Presidente da ANAFRE (Juntas de Freguesias), Dr Pedro Cegonho, pelo Secretário de Estado das Comunidades, Dr José Luis Carneiro e pelo novo Embaixador de França.

Vai ser também em Cascais e em Lisboa que iremos apresentar o novo portal da Cívica e o segundo número da revista Civica Contact.

A Cívica é a associação de Autarcas de Origem Portuguesa em França. Pode explicar-nos o seu papel como Autarca e Conselheiro Territorial da Metropole de Paris ?

Antes de mais, é bom saber que os autarcas são os representantes eleitos pela população ao sufrágio universal para os representar. A autarquia pede alguma flexibilidade na agenda para poder assistir aos Conselhos Municipais uma vez por mês, Bureau Minicipal todas as segundas feiras, comissões e o trabalho da delegação Internacional. Estou em varias organizações em representação da Câmara Municipal de Aulnay-sous-Bois, como no Conselho de Administração do teatro da cidade Jacques Prévert, no Conselho de Administração do licéu Voillaume entre outras.

No âmbito das Relações Internationais, recebemos muitas delegações estrangeiras, cidades e governos das Américas, Africa, Oriente, ect… Também recebemos presidentes de câmaras municipais portuguesas onde desenvolvemos projetos de cooperação específicos a cada território em termos de relação instituicional.

Em janeiro passado, integrei o Conselho Territorial de Paris, Terres d’Envol que engloba 8 cidades e 2 aeroportos, Roissy-Charles de Gaulles e Le Bourget. A mutualização de varios serviços à população são os desafios deste território da Metropole de Paris. Também faço parte da comissão dos mercados públicos do território.

Gostaria vir um pouco mais acima. O Paulo fala de dever de memória com a comunidade chegada nos anos 60 e 70. Pode explicitar a sua visão ?

Quando falo de dever de memória, considero um dever agradecer o esforço feito por esta geração, pelos nossos pais que deixaram tudo para alcançar uma vida melhor. Sem conhecimento do país, sem conhecimento da língua do país de acolhimento, sem saber onde iria morar e sem saber que tipo de trabalho iriam encontrar. Eles foram uns verdadeiros herois !

Herois gozados, herois desprezados, finalmente são herois que « construiram » uma geração de franceses de origem portuguesa com valores extremamente fortes.

É esta a noção que aplico nas minhas funções autarquicas, de conselheiro territorial ou no Conseho das Comunidades Portuguesas. Não esquecer de onde venho para preparar o caminho para onde irão os nossos filhos.

Falando do seu país de origem, Portugal, como vê a comunidade portuguesa em França ?

Parece-me que a visão de Portugal com a sua comunidade é aleatória. No que diz repeito às instituições, posso afirmar que a vinda do Presidente da Répulica de Portugal, mostrou por parte do Prof. Dr. Marcelo de Sousa uma apetência com os portugueses residentes no exterior de Portugal. Mas no mesmo tempo, as políticas para as comunidades estão muito aquém das espêctativas, seja a nível da administração consular, da participação cívica, do ensino, …

Há alguns exemplos a dementir o que avanço e que merecem ser citados. Temos tido um acolhimento exemplar; transformado em parceria, com as juntas de freguesias e nomeadamente a Associação Nacional das Juntas de Freguesias. A sua maneira de ver as comunidades ou os seus filhos residentes fora do seu território de origem, é muito sensível, de verdade e de proximidade. Tenho o privilégio desde à uma década, de partilhar destinos comuns e de trabalhar sobre as boas praticas autarquicas em Portugal e em França.

E Portugal, como país, aos olhos dos franceses, além de bons trabalhadores e bom clima, o que mais Portugal se pode orgulhar ?

Dos seus autarcas e luso-eleitos, do seu dinamismo associativo, da sua capacidade empreendedora e da sua abnegação ao outro nos aspetos de solidariedade.

A participação cívica e política dos portugueses de França ou dos Luso-Franceses aumentou nas últimas eleições autarquicas com mais de 10.000 candidatos e perto de 4.000 eleitos. Aumentou o número de eleitores franceses de origem portuguesa pelo facto de desde 1996, todos os maiores de 18 anos são inscritos automaticamente nas listas eleitorais. De mesmo modo, aumentou o número de eleitores portugueses sem nacionalidade francesa em todo o território somente nas grandes cidades (Paris, Lyon, Marselha e Nice) é que não houve sinais de mudança nas inscrições.

O associativismo está a trabalhar cada vez mais com as autarquias e a adaptar inteligentemente a sua mutação entre tradicionalismo e as espectativas actuais. O número de empresas aumentou e com verdadeiros líderes em alguns setores de actividade. As organizações de solideriedade com membros da comunidade têm feito um trabalho notório no apoio social francês, retribuindo certamente o que beneficiaram ao chegarem a França.

Acredita nos emigrantes quando dizem : « que vêm para ganhar melhor a vida e quando as coisas se endireitarem, voltam lá para baixo »? Acha que é verdade ou são mais uns que ficam, casamento, são pais, avós, férias no mês de Agosto e até “um dia se Deus quiser” ?

Pode ser avançado, é outra época, vai-se mais facilmente a Portugal, há todo o tipo de transporte e penso que é possível alcançar este desejo. Não sem sacrifícios familiares. No entanto, é mesmo difícil prever o que será a situação de quem emigra hoje. Tudo é muito mais rápido. Depende das políticas de cada país, e a capacidade de Portugal ou da França responder ao problema do desemprego. No entanto, é necessário ter as suas métas para que o futuro de cada um seja construido em função dos seus objetivos iniciais. É normalíssimo também quando se vai trabalhar para outro país, que a integração sendo boa e que as oportunidades alcançam níveis de vida melhor, que as pessoas se instalem e fiquem a viver no país de acolhimento. Isso acontece com os portugueses que vêm trabalhar para França, como para os franceses que vão trabalhar para o Canada ou a Australia.

Paulo Marques, tem alguma mensagem ou assunto que queira transmitir à basta comunidade lusófona de França ?

Como me dão esta oportunidade, gostaria de apelar todos os portugueses com ou sem nacionalidade francesa a se inscreverem nas listas eleitorais. A inscrição é simples e pode ser feita por correspondência, ja não é necessário a presença física nos serviços eleitorais das Câmaras Municipais. É com o peso eleitoral que, juntos, podemos mudar de rumo. Finalmente, os nossos filhos, netos necessitam do nosso apoio eleitoral para um futuro mais risonho. Participe !

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