Carlos Ferreira, quatro anos de presidência dedicados aos valores da Academia do Bacalhau de Paris

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Terminou, no passado dia 10 de Fevereiro, o mandato de Carlos Ferreira, de quatro anos frente à Academia do Bacalhau de Paris, quatro anos de dedicação em diversas causas de solidariedade e de defesa da Portugalidade, sempre tendo em conta os principais valores da ABP.
O sessor de Carlos Ferreira é o compadre Fernando Lopes, único a candidatar-se, e que fazia parte desta mesma direcção ocupando o cargo de Vice-presidente.

A Portugal Magazine teve o gosto de entrevistar Carlos Ferreira que nos falou destes quatro anos dedicados à Academia, ao qual agradecemos pela forma de como fomos recebidos. Aproveitamos para dar novamente nossos parabéns a Carlos Ferreira por todo o seu trabalho no seio da Academia e em prol da comunidade com varias acções de ajuda e divulgação.
Desejamos boa sorte ao futuro presidente e que continue a valorizar o nome da Academia do Bacalhau de Paris.

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Carlos Ferreira, como começou a sua ligação com a ABP?
Em 2006, fui convidado por um amigo e colega no mundo dos negócios, José Luís Rodrigues, para comparecer num dos jantares da Academia do Bacalhau de Paris. Na altura, não estava, de todo, envolvido na vida associativa da comunidade portuguesa em França, mas foi aí que tudo começou a mudar. Aceitei o convite, fui ao jantar e continuei a ir aos eventos com alguma regularidade. Mas só em 2010 é que comecei a envolver-me de forma mais intensa, na altura em que foi necessário organizar o Congresso Mundial das Academias do Bacalhau em Paris.

Qual o lema da ABP?
Há três pilares fundamentais deste movimento: amizade, portugalidade e solidariedade, sendo a ordem dos mesmos indiferente. Amizade porque, todos juntos, formamos um grande grupo de amigos, em que os estatutos sociais não têm lugar. Portugalidade porque, estando muitas das Academias sediadas no estrangeiro, os encontros da Academia são uma forma de nos unirmos em torno daquilo que temos em comum, que são as origens portuguesas. Por fim, a solidariedade porque pretendemos ser mais que um simples grupo de amigos portugueses. Queremos apoiar o próximo e, sempre que temos oportunidade, exercemos a vertente solidária, ajudando quem mais precisa.

Como uma pessoa pode se tornar compadre ou comadre da ABP?
Se essa pessoa conhecer algum compadre ou comadre da ABP, deve soliciar-lhe que a convide para um evento. Caso não conheça, pode falar connosco através dos contatos que estão no nosso site e página de Facebook (www.facebook.com/academiabacalhauparis). Depois de estar presente num primeiro evento, a pessoa deve manter a assiduidade e encontrar um compadre que esteja disposto a ser o seu padrinho – mas, na maior parte das vezes, são os padrinhos que sugerem afilhados e não o contrário. Quando se considerar que a pessoa está pronta, é então feito o apadrinhamento oficial. Toda a gente pode tornar-se compadre, independentemente de quem são ou do que fazem na vida. O importante é que, quem quiser tornar-se compadre, partilhe os valores defendidos pela Academia do Bacalhau.

Em 2010 foi organizado o congresso mundial das Academias dos Bacalhau em Paris. Acha que esse grande evento foi o virar de uma nova página na ABP?
Sem dúvida. Foi aí que se começou a constituir aquilo que o compadre fundador das Academias, Durval Marques, chama de “núcleo duro”: um grupo de compadres e comadres, altamente empenhados em fazer deste um movimento mais forte e dinâmico. Durante seis meses, todas as terças-feiras este grupo se reuniu em minha casa. Posso agradecer muito à minha esposa Lucie, que cozinhava para todos nós enquanto trabalhávamos, determinados em preparar o congresso da melhor maneira possível. Foi este projeto que nos uniu, que desenvolveu a nossa amizade, e que nos abriu os olhos para aquilo que é, verdadeiramente, o movimento das Academias. Este “núcleo duro” tinha, e tem, ambições maiores para a ABP do que ser apenas um grupo de amigos que se encontra uma vez por mês. Não há nada de errado com isso, atenção. Mas nós temos a oportunidade de fazer mais e melhor, de exercer imensamente o lado solidário. E, se temos essa oportunidade, é natural que o façamos. Sentimos que ajudamos o próximo e essa é a maior recompensa por todo o nosso árduo trabalho.

A ABP é a instituição sem fundos lucrativos que mais donativos faz a instituições e associações com maior necessidade. Isso era importante neste seu mandato?
Absolutamente. Não foi por acaso que os donativos solidários cresceram exponencialmente no meu mandato. Os valores que alcançámos foram fruto de ações planeadas e de uma vontade sempre presente de potenciar a vertente solidária da ABP.

Como é que a ABP faz a escolha para quem são doadas as ajudas?
Os pedidos de ajuda chegam-nos dos sítios mais variados. Às vezes, através de compadres, a quem as pessoas em necessidade fazem um apelo. Outras vezes, os compadres conhecem pessoas em situações vulneráveis e propõem à ABP que as ajude, mesmo sem ter havido um pedido por parte das pessoas em questão. Temos ainda pedidos que nos chegam através de email ou telefone, de pessoas que não têm ligação nenhuma com a ABP, mas ouviram falar dos seus donativos.
Infelizmente, não podemos ajudar todos os casos que nos chegam e, por isso, fazemos uma seleção com base na aparente gravidade e importância do caso e nos fundos que a ABP tem disponíveis no momento ou nos eventos que tem planeados e possam gerar receitas a breve prazo.

Carlos Ferreira, como são angariados os fundos doados pela ABP?
Os fundos são angariados precisamente nos eventos organizados pela ABP. Antes, estes eventos resumiam-se aos jantares. Como havia sempre uma pequena diferença entre o valor pago por cada compadre à Academia e o valor que a Academia pagava ao restaurante, essa margem era (e continua a ser) direcionada para efeitos solidários.
Nos últimos anos tentamos organizar outro tipo de eventos, de maneira a fazer crescer as fontes geradoras de receitas e prova disso são os torneios de golfe.
Mais recentemente, durante 2016, contamos com a generosidade tremenda de várias empresas que, patrocinando os nossos eventos, permitiram que praticamente todo o valor pago pelos compadres se destinasse a iniciativas solidárias.

Foram centenas de toneladas de roupas e calçado que deram a pessoas e crianças que necessitavam e nestes últimos 4 anos, mais de 150 mil euros de dons. Como presidente, sente-se realizado com o seu mandato?
Quero apenas fazer uma ressalva. Nos meus quatro anos de mandato, doámos 100 mil euros. Os 150 mil euros referem-se a todos os donativos feitos pela ABP até à data.
A Roupa Sem Fronteiras tem sido uma iniciativa brilhante, na medida em que nos tem permitido ajudar centenas de pessoas através de um conceito muito simples: o da reutilização daquilo que já não nos faz falta a nós, mas que é vital para outras pessoas. Tenho contribuído para o projeto mas gostava também de salientar que quem esteve na sua origem foi o compadre Afonso Galvão e o seu principal impulsionador tem sido o compadre Fernando Lopes, que é, aliás, o único candidato nas eleições da ABP, em fevereiro.
Importa ainda ressalvar que tudo o que a ABP alcançou durante os quatro anos dos meus mandatos foi resultado de um trabalho de equipa, de toda a direção da Academia e de muitos amigos que foram contribuindo.
Tendo em conta tudo o que foi alcançado, sim, sinto-me realizado com o meu mandato. Evidentemente que há coisas que poderiam ter sido feitas e não foram ou outras que poderiam ter sido mais bem conseguidas, mas tudo faz parte. Só não falha quem não tenta. E sinto muito orgulho pelo trabalho que desenvolvi estes quatro anos, por tudo o que a ABP alcançou.

Nos últimos anos, ao contrário do que acontecia no início, a ABP tem “percorrido” as capas e páginas dos vários meios de comunicação social, tendo sido, inclusive, criada uma revista da própria Academia. Considera que fazia falta este trabalho? De dar a conhecer a ABP, e o que fazem…
Sem dúvida. Essa foi, aliás, uma das minhas batalhas durante os dois últimos anos: dar a conhecer a ABP ao grande público, desmistificar a ideia de que somos um grupo de pessoas que se reúne para comer bacalhau. Não é nada disso! O reconhecimento do nosso trabalho por parte da sociedade dá-nos mais força e impacto para continuar a realizar os nossos projetos e, para isso, era necessário dar-nos a conhecer.
Desde janeiro de 2015 que temos uma responsável de comunicação, Diana Bernardo, que tem contribuído para que a comunicação com e sobre a ABP se torne mais abundante e eficaz. A criação da revista da ABP é um dos exemplos que melhor ilustra essa nossa vontade. Através da revista, damos a conhecer as nossas atividades e o espírito da Academia do Bacalhau não só aos nossos compadres e comadres, mas também ao grande público. É importante – não basta fazer, muitas vezes é necessário também que a comunidade tenha noção do que está a ser feito. É que às vezes há a noção de que somos um grupo elitista, o que até é verdade mas não no sentido em que se pensa – somos uma elite não social mas uma elite do coração e qualquer pessoa que partilhe os nossos valores pode juntar-se à nossa grande família.

Qual o momento mais marcante durante a sua presidência?
O sorriso de todas as pessoas que ajudámos. Vale tudo.

Há alguns projectos que não conseguiu realizar enquanto presidente da ABP?
Há um projeto que está prestes a ser concluído, que é a aprovação da revisão dos estatutos da ABP. Com este novo documento, a ABP alcançará um estatuto de instituição de utilidade pública, o que lhe permitirá uma desfiscalização que em muito contribuirá para o aumento de fundos destinados à solidariedade. À partida, a aprovação ainda decorrerá durante o meu mandato, mas gostaria que se tivesse realizado ainda mais cedo.
Mas o único projeto que não foi verdadeiramente concluído, foi o da aquisição de uma sede para a Academia do Bacalhau de Paris. Queremos ter um espaço próprio, que possa ser também um espaço vivo, que nos permita desenvolver os projetos que temos. Infelizmente não foi possível adquirir esse espaço durante o meu mandato, mas esse é um dos legados que passarei ao próximo presidente: a conclusão de um projeto que terá um impacto importante na vida da nossa Academia.

Como gostaria de ver a ABP daqui a 20 anos?
Gostaria que, daqui vinte anos, a realidade ultrapassasse largamente a minha imaginação. Quando quatro amigos se juntaram na África do Sul, em 1968, não imaginavam que, daí 50 anos, houvesse 57 Academias espalhadas pelo mundo. Era ousado demais pensar assim. É isso mesmo que desejo para a Academia no futuro. Mas atenção, mantendo sempre os seus pilares, tal como conseguimos fazer nestas cinco décadas.

Quem é o Carlos Ferreira, fora do associativismo?
A pessoa que sou fora do associativismo é a mesma que sou nele, até porque não faria sentido desenvolver um certo tipo de atitude no mundo associativo que não se coadunasse com a forma como vejo o mundo. Os pilares da Academia do Bacalhau são a amizade, a solidariedade e a portugalidade e esses são também três grandes pilares da minha vida. Prezo muito as pessoas que estão à minha volta e dá-me muito prazer um bom momento passado entre amigos. A minha família é muito importante também, é a base. Na minha vida pessoal, a solidariedade manifesta-se quando tento incentivar as pessoas que fazem parte da minha vida, aconselhando-as quando me procuram. E a portugalidade é evidente também: vivo em França desde os cinco anos mas estou plenamente envolvido na comunidade portuguesa, falo português em casa e vou frequentemente a Portugal – faz parte da minha identidade.
Além disso, sou um empresário respeitado pelos meus funcionários, clientes e fornecedores. Tenho uma empresa de materiais de construção que está a completar vinte anos – duas décadas de muito trabalho e dedicação, mas que têm valido muito a pena.
Para além do trabalho, tenho uma vida social, convivo com amigos e faço desporto quando tenho tempo (o que não acontece muitas vezes por causa de outras responsabilidades, nomeadamente associativas). Gosto muito de jogar golfe!

Uma mensagem, para o novo (futuro) presidente…
Que ouse inovar, porque só assim é que a Academia pode manter-se forte e dinâmica, mas que mantenha sempre o respeito por tudo o que já foi construído até aqui. E que consiga abrir esta nossa Academia aos jovens, da mesma maneira que eu e o meu antecessor, António Fernandes, abrimos a ABP às senhoras. E eu aqui estarei para ajudar no que me for possível, e se assim for o seu desejo.

Carlos Ferreira, qual a mensagem que deixa para a comunidade Portuguesa e leitores da Portugal Magazine?
Os portugueses, sobretudo no estrangeiro, são conhecidos pelo seu espírito solidário. Não hesitamos em estender a mão a quem mais precisa e prova disso são todas as iniciativas solidárias que a ABP tem levado a cabo, mas não só: na região parisiense há imensas associações portuguesas que contemplam a solidariedade nas suas ações. Às vezes, são pequenos gestos mas que, em conjunto, fazem a diferença na vida de quem mais precisa. Ser solidário é mais fácil do que parece. Por isso, o apelo que faço a todos é que, sempre que lhes for possível, ponham em prática a solidariedade – vão ver que vale a pena.

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