ENTREVISTA | Cônsul-Geral de Portugal em Paris – António Albuquerque Moniz, opinião sobre a comunidade portuguesa de França

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António Manuel Albuquerque de Vilhena Moniz  assumiu  o cargo  de  Cônsul-Geral  de Portugal em  Paris,  a  23  de  Novembro  de  2015.  Desde então  tem  focado  a  sua  linha  de  trabalho  na melhoria da  área de atendimento  à comunidade portuguesa. Todos os dias, são cerca de 700 os  portugueses  que  passam  pelo  Consulado  Geral  de  Portugal  em  Paris,  e  a  excelência  no atendimento é uma prioridade. A representação Consular tem estado em alta, desde o início do seu  mandato.  Este  é  também  um  caminho  de  que  se  orgulha.  O  objectivo,  segundo António Moniz  é  apoiar,  na  melhor  medida  possível,  a  comunidade  e  foi  para  isso  que  assumiu  esta função.

A  Portugal  Magazine  esteve em  conversa  com  o  Cônsul-Geral,  que  nos  falou  sobre  este tempo ao comando do Consulado Geral de Portugal em Paris.

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Quando assumiu o cargo de Cônsul, qual foi a visão que tinha da comunidade portuguesa de França?

Sendo este o meu primeiro posto consular, vinha  com uma certa expectativa.  Porque já tinha  estado  colocado  em  duas  Embaixadas,  em  Berlim  e  em Varsóvia.  Já  tinha  estado também  num  posto  multilateral,  a  Missão  de  Portugal  junto da  Organização  para  a Segurança  e  Cooperação  na  Europa (OSCE),  mas  faltava-me  ainda  esta  componente,  a parte  das  Comunidades  portuguesas,  embora  em  Lisboa também estivesse  colocado  na Direção Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas em 2005/2006. Falei longamente com o meu antecessor, o Embaixador Pedro Lourtie, que me explicou muito  bem  como  é  que  as  coisas  se  passavam.  Foi  um briefing  muito  completo.  Sabia que, à partida, este é um posto exigente: é o posto consular que tem o maior número de portugueses e é também aqui onde o movimento associativo atinge a sua máxima força. E é também o Consulado-Geral em Paris que pratica o maior número de atos consulares e  que tem  o  número  mais  elevado  de  funcionários. Vinha,  assim,  com  expectativa  uma relativa  a  todos  estes  elementos,  mas  quando  cheguei  aqui, fui  rapidamente  ajudado pelos  colegas  no  Consulado  por  vários  membros  da  comunidade,  que  me  ligaram  e convidaram,   foram   muitíssimo   simpáticos   e   acolheram-me   numa   receção   muito calorosa. Lembro-me  que  depois  de  ter  chegado,  participei  num  jantar,  a  convite  de  um  banco português,  onde  tive  a  oportunidade  de  logo  conhecer  vários  empresários  da  zona  de Paris e que me abriram muito as portas para a comunidade portuguesa. O  trabalho  no  Consulado  é  bastante  exigente,  porque  todos  os dias  temos  600  a  700 utentes que passam nas nossas instalações. E por isso, também procurei logo desde o início, estabelecer um diálogo constante com os funcionários de modo a aperceber-me bem da dimensão do trabalho que eles desenvolvem e das necessidades da nossa comunidade aqui em França.Por outro lado, também cheguei a França logo após os atentados do 11 de novembro. As nossas  técnicas  do  nosso  serviço  social  explicaram-me  todo o  apoio  que  estava  a  ser prestado  às  famílias  das  vítimas  portuguesas.  Aliás,  a  primeira  cerimónia  em  que participei quando cheguei a Paris, foi precisamente uma missa em honra das vítimas dos atentados de Paris. Foi muito comovente.

Qual o balanço desde que assumiu as funções de Cônsul-Geral em Paris?

Em  Dezembro  passado  estive  na  Rádio Alfa  e  fiz  um  balanço  bastante  abrangente  das atividades  do  Consulado-Geral  no  primeiro  ano.  Considero  que foi  um  ano  muito positivo  com  a  celebração  do  10  de  junho  em  Paris  com  o  nosso  Presidente  da  República,  o  nosso  Primeiro-Ministro  e  o  Presidente  francês. No  que  toca  ao  trabalho consular  aumentámos  o  número  de  dados  consulares  em  cerca  de  5c/o,  o  que  significa que  estamos  a  dar  um  apoio  mais  intenso  à  comunidade.  Por outro  lado, tive  ao  longo do ano a oportunidade de visitar muitas associações portuguesas, muitas empresas cujos proprietários  são  portugueses  ou  franco-portugueses.  Tive  oportunidade  de  encetar todos  esses  contactos  num  diálogo  bastante  positivo  e na  perspetiva  de  melhorar o serviço que é prestado à nossa Diáspora. Por outro lado, devo acrescentar que da parte das  autoridades  francesas  (a  nível  local)  sempre  tive  uma  ótima  receção  e  bons contactos.  Este  diálogo  é  uma  componente  importante  nas  minhas  funções,  porque  as Câmaras Municipais também dão um apoio significativo  às nossas associações. Muitas vezes disponibilizam  as  instalações e apoiam a comunidade na organização de eventos. As  próprias Mairies  também  têm  a  iniciativa  de  organizaro ‘ Dia  de  Portugal’ ,  a ‘ Semana de Portugal’ , o ‘ Mês de Portugal’ , ou o ‘ Ano de Portugal’ . Este ano, por exemplo, na zona de Nantes, vão dedicar todo o ano a Portugal. Já estive na região uma vez e tenciono voltar pelo menos mais duas vezes até ao próximo verão, porque  vamos  organizar  um  programa  bastante  rico  de  atividades  a  nível  cultural dirigidas, não só para a nossa Comunidade,  mas também para os franceses conhecerem melhor  Portugal.  E  com  o  envolvimento  e  apoio  das  nossas  associações  locais  e  de algumas  empresas  portuguesas.  Tenho  planos  para  dar  uma  especial  prioridade  a  esta atividade,  que  também  se  concretiza  longe  de  Paris,  de  forma  a  demonstrar  que  o Consulado,  apesar  de  estar  na  capital,  também  se  preocupa  com  as  outras  zonas  mais distantes da sua área de jurisdição. Devo  ainda  acrescentar  que  da  parte  das  autoridades  locais  sempre  deparei  com  uma grande  abertura  e  compreensão  para  discutir  questões  e  problemas  que  afetam  a  nossa comunidade.  E,  verdade  se  diga,  raras  foram  as  situações  em  que  me  relataram  algum problema com membros da Comunidade. A Comunidade portuguesa e a nossa Diáspora –e é importante sublinhar isto – é muito trabalhadora,  séria,  respeitada  pelos  franceses,  que  reconhecem  que  deu  um  contribuiu muito relevante para construção deste país, numa altura em que mais precisava, ou seja, na  segunda  metade  do  século  XX. E é também uma  Comunidade  que tem  contribuído, de  forma  decisiva,  para  o  desenvolvimento  económico,  científico  e  tecnológico  em França.   Como sabemos, atualmente   existem   portugueses   em   vários   nichos,   que desempenham aqui funções de muita responsabilidade.

Mas não acha que a nossa comunidade é tímida? Que não se mostra tanto como se deveria  mostrar?  Como  por  exemplo,  a  nível  de  eventos  culturais  e de  divulgação cultural? Não faltaria aqui, por exemplo, uma casa dedicada à cultura portuguesa?

O Povo português tem uma  forte personalidade e sabemos  bem  a  importância da nossa história  e  quão  importante  foi  o  nosso  papel  no  mundo.  E  não  temos  problemas  em  ir trabalhar  para  outros  países:  a  nossa  Diáspora  já  representa  mais  de  5  milhões  de pessoas  espalhadas  por  todo  o  mundo.  Por  outro  lado,  os  portugueses são,  de  certa forma,  caracterizados  por  alguma  timidez.  Mas  quando  deparamos  com  questões  que nos  são realmente  importantes,  cá  estamos sempre  prontos  para  nos  defender.  Somos um  Povo  que  sabemos  bem  aquilo  que  queremos. Não  encaro  assim  a  nossa  timidez como um defeito mas mais como uma qualidade. A nível de representação de instituições do Estado estamos bem servidos aqui em França e existe uma boa coordenação. Há também outras instituições que têm um papel muito importante.  Dou  o  exemplo  da  Casa  de  Portugal  André  de  Gouveia, que,  devido  à determinação  da  sua  Diretora  e  apoio  de  muitos  portugueses,  passou,  desde  o  ano passado, a ter uma sala de grandes dimensões disponível para eventos de divulgação da cultura portuguesa. A nível associativo, verifica-se neste momento uma transformação, ou uma evolução se preferirmos. Os objetivos que levaram à criação das associações, que inicialmente eram polos  essenciais  de  reunião  dos  portugueses  e  uma  forma  de  se  sentirem  mais  perto  de Portugal, acabaram por evoluir. Naquela época as condições eram outras e as associações  tiveram  um  papel  muito  importante  no  apoio  prestado  aos  portugueses  que  vieram para França por razões económicas, sociais ou até políticas. Neste momento, as associações continuam a ter um papel relevante  em termos culturais,  mas  há um certo “choque de gerações” uma vez que muitos jovens sentem-se mais ligados a França (sinal de boa integração) e por isso  já não se sentem tão obrigados a desenvolver atividades  em prol da  comunidade.  Acho  que   é  necessário  encontrar  um  equilíbrio,  procurar  que  o movimento associativo continue a ser forte, porque é uma maneira de promover o nosso país  e  ajudar  os  nossos  compatriotas. De  facto  as  associações  também  têm  um  papel fundamental  de  representação  da  sociedade  portuguesa.  Estou  bem  ao  corrente  que  há muitos  franceses  interessados  por  Portugal  e  que  procuram informações  junto  das nossas associações.

O Consulado continua a ter um  papel  importante  no  apoio  administrativo  que desenvolve,   mas também na organização de eventos culturais.   Tem outros projectos, no seguimento da linha de trabalho que estava a ser feito?

O Consulado de Portugal em Paris tem mantido, desde há vários anos, as portas abertas à comunidade. O meu antecessor desdobrou-se em participar em iniciativas por toda a área  de  jurisdição,  e  eu  tenho  procurado  manter  o  ritmo. E posso  dizer  que,  no  ano passado,  foram  mais  de  250  atividades  em  que  participámos  fora do  Consulado.  No Consulado  foram  quase  40  eventos  que  organizámos  ao  longo  do  ano,  de  índole, cultural, económico ou social.

Concorda com a decisão de encerrar os vários postos do Consulado e centralizar os serviços aqui no Consulado Geral de Portugal em Paris?

O encerramento que refere foi feito de forma progressiva ao longo de vários anos. Paris está  neste  momento  a  cobrir  uma  área  que  já  foi  coberta  por  7  ou  8  representações consulares. Compreendo   que   as   dificuldades   orçamentais   que   sentimos   não   nos permitissem  ter  uma  estrutura  tão  extensa.  Mas  foi  também  possível  abrir –  como extensões  do  Consulado-Geral  em  Paris  –  presenças  consulares  permanentes  em  quatro cidades (Orleães, Tours, Nantes e Lille) e assegurar uma presença pontual em mais nove cidades da nossa área de jurisdição. O sistema adaptou-se à situação económica do país, o que não quer dizer que no futuro não venham a verificar-se melhorias no que respeita à extensão da nossa rede.

Há algum assunto que queira realçar?

O  principal  objetivo  do  Consulado  Geral  de  Portugal  em  Paris é  apoiar  a  nossa Comunidade.  Tenho  reconhecido  sempre  duas  vertentes:  a  representação  externa  e  o trabalho  desenvolvido  internamente  no  Consulado.  Sei  que  ainda  há  margem  para melhorar e gostaria de destacar o grande empenho, zelo e profissionalismo dos funcionários consulares. Estamos neste momento a recrutar mais dois  funcionários e no período do Verão  vamos  ter  aqui  mais  quatro  estagiários  de  longa  duração, o  que  significa  que futuramente  iremos contar com mais 6 funcionários, o que é muito relevante no apoio à nossa  Comunidade.  Gostaria,  assim,  de  encurtar  os  prazos  das  marcações  dos  nossos serviços.  Para  isso  tenho  contado  muito  com  o  apoio  e  empenho das  autoridades  em Lisboa: do Senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas (que já aqui veio oito  vezes  no  espaço  de  um  ano)  e  da  Direção-Geral  dos  Assuntos  Consulares  e Comunidades  Portuguesas.  Recordo  que  em  2016  o  Consulado-Geral  em  Paris  abriu  o primeiro  Espaço  do  Cidadão  fora  de  Portugal,  disponibilizando  assim  mais  umas dezenas de serviços à nossa Comunidade.

Uma mensagem para a comunidade…

Gostaria  de  fazer  um  apelo  ao  recenseamento  eleitoral  e  à  participação  nos  atos eleitorais  quer  em  França,  quer  em  Portugal,  sempre  que  possível.  Só  assim  a  voz  dos nossos compatriotas será melhor ouvida. Gostaria  de,  quando  partisse  de  Paris,  ter  a  convicção  de  que contribui  para  apoiar  os nossos compatriotas e membros da Diáspora e de ter conseguido que esta Comunidade, que  não  esquece  Portugal  e  tem  sempre  o  nosso  país  no  coração, fosse  melhor  e  mais rapidamente atendida. Gostaria ainda de partir com a sensação de ter cumprido uma missão exigente de elevar ainda mais a imagem de Portugal e dos portugueses residentes em França. Gostaria assim de recompensar uma Comunidade que bem merece…

PERCURSO PROFISSIONAL : António Manuel Albuquerque de Vilhena Moniz Nasceu  em  1  de  dezembro  de  1965,  em  Lisboa;  licenciado em  Direito  pela  Faculdade  de Direito  da  Universidade  Clássica  de  Lisboa;  curso  de  Formação  Diplomática  pelo  Instituto Superior  de  Ciências  Sociais  e  Políticas;  aprovado  no  concurso de  admissão  aos  lugares  de adido de embaixada, aberto em 18 de março de 1991; adido de embaixada em 24 de setembro de  1991;  terceiro-secretário  de  embaixada,  em  15  de  dezembro  de  1992;  na  Representação Permanente  junto  da  OSCE,  em  Viena,  em  27  de  dezembro  de 1996;  segundo-secretário  de embaixada em 2 de março de 1998; primeiro-secretário de embaixada em 24 de setembro de 1999;  na  embaixada  em  Varsóvia,  em  1  de  abril  de  2003;  na  Secretaria  de  Estado,  em  19  de setembro de 2005; chefe de divisão de Acordos na Direção de Serviços de Vistos e Circulação de Pessoas da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, em 7 de novembro  de  2005;  conselheiro  de  embaixada  em  21  de  junho  de  2006;  chefe  de  divisão  na Direção  de  Serviços  das  Organizações  Económicas  Internacionais  da  Direção-Geral  dos Assuntos  Multilaterais,  em  22  de  junho  de  2006;  membro  e  representante  do  Ministro  de Estado e dos Negócios Estrangeiros no Conselho de Garantias Financeiras à Exportação e ao Investimento, em 30 de março de 2007; diretor de serviços da Diplomacia Económica da Direção-Geral dos Assuntos Técnicos e Económicos, em 1 de maio de 2007; ministro conselheiro na Embaixada de Portugal em Berlim, em 18 de fevereiro de 2009; chefe do gabinete do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em 18 de agosto de 2013; ministro  – plenipotenciário de 2ª classe, em 28 de maio de 2015; Cônsul-Geral de Portugal em Paris, em 23 de novembro de 2015.

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