Respeito, humildade e rigor no trabalho são os lemas de vida para Antónia Gonçalves

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A Portugal Magazine teve o privilégio de conversar com Antónia Gonçalves, o rosto da pastelaria Canelas – Le Portugal à Paris, que nos recebeu no seu cantinho de Portugal, sediado em Pierrefitte-sur-Seine. Numa conversa agradável, D. Antónia (como é conhecida) abriu o livro da sua vida e citou-nos algumas das passagens mais importantes.

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Pisou pela primeira vez o território francês em 1970, começou por trabalhar em fábricas, passando depois para a área das vendas. Hoje, dirige, com a sua equipa, a pastelaria Canelas, com 40 funcionários, conhecida como a embaixadora do famoso pastel de nata, em Paris.
Uma entrevista que relembra os altos e baixos da vida de Antónia Gonçalves, de onde podemos retirar boas lições de moral, e aprender… com a voz da experiência!

Quando pisou pela primeira vez o território francês?
O meu pai estava cá desde os anos 65, e certo dia disse: não vou mais para Portugal. Agora é a vossa vez de vir. Então, a minha mãe, como tinha seis filhos e não os podia trazer todos, decidiu trazer as filhas mais velhas, eu e a minha irmã, e deixou quatro filhos em Portugal, até arranjar condições para os trazer. Viemos a salto de Chaves e cá chegamos, sem saber ler nem escrever, como todos os emigrantes da época. Quando chegamos, no dia 30 de Novembro de 1970, nem sequer tinha o meu pai à espera, porque havia greve dos correios, e o meu pai não tinha recebido a nossa carta a avisar que vínhamos para França.Aflita com a situação, desatei a chorar, junto da minha mãe e irmã. Depois, uma senhora de Braga, reparou e ofereceu-nos boleia para Paris 10, onde depois encontramos o meu pai. Lembro-me que estava a lavar a roupa de trabalho, para na segunda-feira ir trabalhar.

Como foi a fase de adaptação a uma nova realidade, e a uma nova vida?
Nessa época, eu e a minha irmã fomos para um quarto, e o meu pai e a minha mãe foram para outro. Eu e a minha irmã arranjamos trabalho, para pagar a renda e mandar algum dinheiro para os meus irmãos em Portugal. E a minha mãe ficou à espera que os restantes quatro filhos viessem, que tinham ficado na casa da minha tia em Creixomil. Comecei por trabalhar numa fábrica de borracha. E foi impressionante porque o trabalho era muito duro e tinha de me sujeitar. Lembro-me dos cheiros incomodativos, e na altura eram quase só homens que lá trabalhavam. O meu pai depois conseguiu arranjar casa, e passamos a morar todos juntos. Foi o senhor padre que nos deu a roupa para as camas e algumas loiças velhas. Começamos a trabalhar, para ajudar a sustentar a família e tudo isso me ensinou bastante na vida… Via as necessidades dos meus pais, e comecei a trabalhar 9 horas na fábrica e depois ia fazer 3 horas na limpeza, durante cinco anos. Saia às 20h30, chegava a casa às 22h45, jantava e ia para a cama, para me levantar, todos os dias às 05h30, para estar às 07h30 na fábrica. Fiz isto, até casar.

À parte do trabalho… Conte-nos, como é que conheceu o seu marido?
O Carlos, conheci-o numa festa. Quando cheguei a França, fazia parte da JOC (Juventude Operária Católica), e para mim foi uma grande escola. Quando cá cheguei, através de Lisboa e Braga, integrei-me na JOC francesa. E pouco a pouco fomos fazendo os grupos de portugueses em França. E eu era um bocado a pessoa que coordenava. Sempre fui muito ligada à vida associativa e ao teatro. O que queríamos era encontrar um ponto de acolhimento, aqui, em França.Depois houve o 25 de Abril, e fomos a Portugal. Aquilo estava tudo novo, ouviam-se as canções do Zeca Afonso… e reparei que ainda havia muita coisa por descobrir. Quando viemos, dissemos a um amigo, ao Custodio Oliveira, e resolvemos fazer um magusto, e perguntar aos jovens o que era para eles o 25 de Abril. Então vieram alguns amigos, a representar a Embaixada, inclusive o meu cunhado Aníbal Almeida e veio também o Carlos, que era cunhado do Dr. Aníbal de Almeida. Foi ai que nos conhecemos, e simpatizamos um com o outro. Um ano depois casamos e foi muito giro. O Carlos foi muito bem aceite pela minha família e vice-versa. Na altura, tinha 26 anos.

E antes de casar? Como era o seu dia-a-dia? Como foram as suas experiencias laborais?
Até casar, dei sempre o meu salário para a casa. Casei no dia 8 de Novembro de 1975, e dei o meu ordenado até ao dia 31 de Outubro. Porque para mim era lógico que os tinha de ajudar. Lembro-me de perguntar ao meu pai, no dia do casamento, o que é que ele ia fazer sem a minha contribuição, e ele me dizer: minha filha, eu quero é que sejas feliz! A gente vai-se desenrascar. Depois, fui trabalhar para uma fábrica, e as coisas foram evoluindo, tendo pouco tempo depois de começar a trabalhar, cerca de um ano e meio, passado a responsável de equipa. Fiquei impressionada, até porque nem sabia falar muito bem em Francês. Mas o meu patrão disse-me: se você fizer bem o trabalho, não precisa de falar muito. Acho que não tinha noção das minhas capacidades, porque as pessoas depositavam-me demasiada confiança nos postos de trabalho. Na altura causou algum incómodo a alguns trabalhadores porque, por serem de diferentes nacionalidades, e mesmo outras mulheres que já lá trabalhavam há 20 anos, ver uma jovem como eu na altura a assumir um cargo de chefe… foi difícil de aceitarem. Um dia até queriam fazer greve por não estarem de acordo com isso. Mas as coisas foram mudando. Quando saí dessa fábrica, todos nos dávamos bem. Até o meu chefe achou estranho e chegou mesmo a dizer-me: que se passa neste atelier? É o que tem piores condições e é onde há mais calor humano. Depois a fábrica fechou, foi para Corbeil Essonnes, e eu fui para o desemprego. Nessa altura, aproveitei para ir para a Alliance Française. Entretanto chamaram-me para trabalhar e eu fui, como responsável de um armazém de sapatos. Lá fui, e tinha seis pessoas à minha responsabilidade. O meu patrão disse-me: Você tem aqui seis leões! Ocupe-se deles. Eu fazia o meu trabalho e correu tudo bem. Apenas tive de por um na rua, para ter alguma estabilidade no trabalho, porque era ele que gerava mau ambiente. Entretanto aquilo mudou de local, e como ficava muito longe, acabei por não continuar.

Quando é que o seu caminho se cruzou com o da pastelaria Canelas?
Uma vez, na época de Natal, pediram-me para ir trabalhar para a pastelaria Canelas. Na altura era a madame Canelas, viúva, e os seus funcionários. Trabalhei lá durante seis semanas, mas não dei seguimento. Como não havia mais fábricas, converti-me para a área das vendas, em Paris 17, como vendedora num pronto-a-vestir. Não me agradou e com a minha experiência procurei trabalho e encontrei, numa loja de sapatos, onde trabalhei durante alguns anos. Mas passar o dia todo de joelhos a calçar os sapatos às pessoas, não era bem o que queria. Um dia foi um senhor à loja onde trabalhava e contratou-me para trabalhar na loja dele, de acessórios de luxo. Como malas, gravatas, guarda-chuvas, lenços… em Paris. Uns anos depois, a madame Canelas veio ter comigo e disse-me que a empresa estava com dificuldades, e que eu deveria tomar conta do negócio. Mas a minha primeira reacção foi: Mas eu não percebo nada! Como até ao final do ano tinha de dar uma decisão, decidi aceitar o desafio. O meu marido apoiou-me, disse-me que eu era capaz. Ele ficou responsável pela parte da burocracia, como gerente, e eu fui trabalhar para o terreno. Aceitei porque não me sentia realizada, queria fazer algo mais pessoal. Na altura ficamos com o activo e com o passivo e com os funcionários. Ficamos com a empresa no dia 1 de Dezembro de 1996. Faz agora 20 anos.

Como foi assumir o comando de uma empresa que na altura não estava a passar pela melhor fase, e transformá-la no que hoje podemos ver?
A minha preocupação era a qualidade, a pontualidade e a seriedade da empresa. Comecei por acompanhar a equipa da noite para perceber como se fazia o trabalho. E durante o dia, para perceber o funcionamento da empresa. Foi uma aprendizagem total. Não conhecia nada de pastelaria. Muita coisa mudou, foi uma revolução constante. Éramos uns 12 ou 13 a trabalhar, e na altura não sabia bem o que me esperava. Só sei que fazia o que fosse preciso, fosse limpeza, lavar muros, preparar encomendas, tudo o que era necessário. Pouco a pouco fomos crescendo e modificando a qualidade e a estrutura da pastelaria, até que não podíamos avançar mais, dado o espaço, e os pedidos dos clientes. Foi ai que procuramos encontrar novos locais e ver o que é que deveríamos fazer. Continuar assim, ou lançarmo-nos numa aventura. Para mim, deixar as coisas como estavam, não era solução. Queríamos construir algo que fosse digno para a comunidade portuguesa. Foi ai que fizemos o apelo ao Carlos da Ponte para se associar connosco. Como queria ficar no meio das pessoas, compramos o terreno onde estamos hoje e já cá estamos há seis anos. Quando cheguei, no primeiro dia, e quando as portas já estavam montadas, vi que o meu sonho estava a tornar-se realidade. E este conceito Canelas – Le Portugal à Paris, era o que correspondia aos meus objectivos. Fazer um cantinho de Portugal, nos arredores de Paris.

O que foi necessário para levantar um negócio que estava quase na falência?
Foi preciso ter muita força de vontade, trabalhar de forma muito séria e ter muito respeito pelos clientes. E ter uma equipa sólida para dar resposta às necessidades. Hoje somos 40 na empresa. Temos o privilégio de fazer a pastelaria artesanal, fazer o pão, servir refeições, servir comida para fora, serviço de catering, e eventos na sala D. Antónia. Uma sala muito agradável com capacidade para 160 pessoas, onde fazemos baptizados, casamentos, reuniões de amigos… uma série de eventos. Trabalhamos com empresas portuguesas e várias entidades de renome na comunidade portuguesa. E já estamos inseridos no mercado francês.

É verdade que se entrega de corpo e alma, quando aceita um trabalho? Seja um aniversário ou um evento da Embaixada, por exemplo?
Sim! Encaro todos os desafios de igual forma. Em cada evento procuro dar o meu melhor, respeitando os gostos e o orçamento do cliente. Gosto que as pessoas me dêem confiança, e no final fiquem felizes com o resultado. Um cliente contente, é a minha maior satisfação.

Quem faz parte do comando da empresa?
O meu marido, Carlos Gonçalves, é o presidente da empresa. O Carlos da Ponte, é o responsável pelo fabrico da noite, gere a produção da noite. A Sandra é a responsável pelo serviço de marketing. O nosso filho é osteopata, mas trabalha a meio tempo connosco, para ajudar o pai. E eu, Antónia Gonçalves, sou a responsável dos eventos.

Quais são os valores fundamentais que aprecia nas pessoas?
A Portugal Magazine teve o privilégio de conversar com Antónia Gonçalves, o rosto da pastelaria Canelas – Le Portugal à Paris, que nos recebeu no seu cantinho de Portugal, sediado em Pierrefitte-sur-Seine. Numa conversa agradável, D. Antónia (como é conhecida) abriu o livro da sua vida e citou-nos algumas das passagens mais importantes.
Pisou pela primeira vez o território francês em 1970, começou por trabalhar em fábricas, passando depois para a área das vendas. Hoje, dirige, com a sua equipa, a pastelaria Canelas, com 40 funcionários, conhecida como a embaixadora do famoso pastel de nata, em Paris.
Uma entrevista que relembra os altos e baixos da vida de Antónia Gonçalves, de onde podemos retirar boas lições de moral, e aprender… com a voz da experiência!

A vida nem sempre lhe sorriu… Esses momentos, tornaram-na mais forte e fizeram de si, a pessoa que é hoje?
Já tive muitos momentos de choro e de alegria, ao longo da minha vida. Mas quando olho para trás, não me arrependo de nada. Vim para França com 20 anos, deixei ficar tudo e vim para um novo país. Passei por vários momentos difíceis, quer a nível pessoal, quer profissional. Depois, a sorte também tem de ser apanhada na hora certa. Tudo o que tenho foi com muito sacrifício! As coisas não vêem por acaso. Daquilo que fiz, não tenho remorsos de nada. Se for a fazer um exame de consciência, não há ninguém a quem fiz mal, e procurei dar sempre o melhor de mim. Posso bater em todas as teclas e vamos sempre dar ao mesmo, é aquilo que sou. É como diz a minha mãe… No outro dia a minha mãe disse-me assim: Oh minha filha! Que feliz sou eu. Tanta fome passei e vejo os meus filhos tão bem. Qual é a melhor recompensa para um filho, do que ouvir estas palavras? Quando festejei os 40 anos de casada, os meus filhos perguntaram-me que músicas queria…Eu pedi músicas do Paco Bandeira e do Zeca Afonso, e Edith Piaf – Je ne regrette rien. Porque acho que tudo o que fiz até hoje foi bom. Podia ter feito melhor, mas se não fiz, foi porque não sabia. Mas não, não me arrependo de nada. Mesmo na educação dos meus filhos, sempre dei o meu melhor. E quando não conseguia mais, pagava a quem o pudesse fazer. Por exemplo, eu não lia histórias à noite aos meus filhos, porque não queria induzi-los em erro, com a minha pronúncia. Como o meu marido falava melhor, era ele que as lia. Nunca vivi em grandes ilusões de dinheiro, nem ilusões de muita coisa. Fui aceitando a vida como ela é, e dando o meu melhor.

O que é que a D. Antónia mais gosta de fazer? O que é que a faz feliz?
Gosto de viajar, conviver com os meus filhos, os meus netos. Adoro música gospel, musica clássica… Sou apaixonada por flores! Adoro ir a convívios e confraternizar com as pessoas. A qualquer lado que vá, há sempre um amigo, ou uma pessoa que descubro, e que é fantástico. No meio de um grupo de 100 pessoas, há sempre um, que conhecemos e é maravilhoso. Basta estarmos atentos, há sempre pessoas boas a conhecer.

Canelas – Le Portugal à Paris
23 Rue Camélinat
93380 Pierrefitte-sur-Seine

 

 

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