CRÓNICA – Surdos do coração (Por Cristina Branco)

0

‘I must have been almost crazy
to start out alone like my bicycle
pedalling into the tropics
carrying a medicine for which no one
had found the disease
and hoping I would make it in time.’
Richard Shelton, ‘The Tattooed Desert’

Sou do tempo, das cartas pelo correio e dos slows ao Domingo à tarde. Não sabia nessa época que vivia o fim d’uma era : A era da comunicação humana. Tal como os bailes da paróquia deram lugar às discotecas, as discotecas deram lugar a fábricas dansantes, onde a juventude comunica pouco, bebe muito e sacode o corpo numa dança similar à de expulsar demónios e outras entidades maléficas. Tal como as cartas foram dando lugar ao telefone, o telefone deu lugar ao telemóvel e este deu lugar às SMS. A internet engoliu tudo e hoje basta-nos ir à Facebook inteirar-nos da saúde dos próximos e jà nem sequer precisamos de lhes falar, nem escrever, nem coisíssima nenhuma. A Facebook avisa-nos dos aniversários, das férias, das festas, das doenças, enfim até da vida sentimental e da falta dela. Que tempos tristes estes, em que o nível de vida aumentou, em que se fala da crise mas compra-se nos saldos o que não se precisa, come-se sem fome e uma grande parte das doenças que aterrorizavam os nossos pais e avós foram irradicadas. Mas não somos felizes. Perdemos o gosto das coisas simples, o gosto pelo bolo caseiro, o gosto da broa da casa dos avós, da fruta da época colhida da árvore. Que tempos tristes em que há música e ninguém sabe dançar, onde a comunicação nunca foi tão acessível e se perdeu a capacidade de comunicar. Onde jáninguém leva multa por dar beijos na rua e os gestos de afecto se tornaram ridículos e estranhos nesta liberdade que adquirimos sem dar pela conta e perdemos sem que ninguém no-la tenha roubado. A sociedade está doente, não da crise económica, mas da crise moral e humanista. Fecharam-se os corações como se fecharam em poucos anos os comércios tradicionais. Por vezes, dá vontade de lhes bater à porta e perguntar : « Diga menina, a que horas abre o coração ? » Não há aqui um sentimentalismo saudosista do « antes é que era bom ». Trata-se apenas deste pequeno pormenor mudam-se as épocas e avança-se na tecnologia, e nós em vez de avançarmos como a tecnologia substituímos o humano pela máquina. Já ninguém se lembra d’um número de telefone, ninguém se lembra d’um aniversário. É o telemóvel que nos lembra os números e a Facebook que nos recorda os aniversários. De vez em quando roubam-nos o telemóvel. Avaria e ficamos sem a extensão virtual da memória. Avaria o computador e o tempo de o ter ne novo perdemos as datas de aniversários dos que nos são caros porque a Facebook não pode avisar-nos. Uma vez contava-me uma senhora que quando casou, emprestaram-lhe o vestido e que ao noivo foram os amigos que se juntaram para lhe alugar um fato, que levou um ramo de flores do campo e que vieram uns amigos com uma concertina para a festa. A mãe matou um frango e os vizinhos trouxeram doces. A festa foi bonita. Hoje, alugam-se caleches, carros, salas, imitam-se príncipes e princesas, os amigos afligem-se, porque tem que contribuir à altura do fausto e da festa e o prazer de participar neste momento feliz de um amigo ou parente torna-se para alguns num quebra cabeça financeiro. Para, em muitos dos casos, a paixão dar lugar ao divórcio, ao drama, à infelicidade para estranheza de todos os que viveram a mise en scène do casamento. Onde nos perdemos ? Na facilidade e na preguiça de ter largado a pena pela esférográfica, a esférográfica pelo telefone e pelo teclado do computador ? Onde perdemos a voz ? A vontade de dançar com harmonia ? Onde perdemos a simplicidade de fazer uma festa pelo prazer de ter os amigos à volta ? A sociedade está doente, uma doença à qual ainda não foi dado nome. Uma doença que não existe mas para a qual háum medicamento : o amor. O amor fraterno, amigável, de Pais. So o amor nos salva da morte, desta morte em vida que nos encerra dentro de nos proprios como borboletas espetadas pelo coração em caixa de vidro. Para o imobilizar. Temos medo. Medo de nos ferir nos sentimentos . Medo que se aproveitem de nós na amizade. Vivemos divididos por odiozinhos e invejas familiares, com receio de voltar a ser enganados, de avançar para os outros e que eles nos voltem a cara. A menina dança ? Não nem sequer sabe dançar. A menina jà não dança e o menino encosta-se ao bar e bebe entre os amigos. Amigos que já não são amigos mas companheiros de bebedeira. Que deserto humano neste mar de gente. Tanta gente só, entre gente. Estamos surdos do coração.

Cristina Branco

Partilhar.

Comments are closed.