Valdemar Francisco, da ideia ao projecto até a realização de um sonho em nome da comunidade portuguesa

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Valdemar Francisco, natural do lugar da Boiça, freguesia de Colmeias (Leiria) chegou a França com apenas seis anos de idade. Vindo de uma aldeia pacata, conta que ficou maravilhado com o cenário que encontrou em França, porque tudo era diferente e tinha mais movimento. No inicio, morou com os pais em Villiers-sur-Marne, e pouco tempodepois, mudaram-se para o Bidonville. Hoje, é o presidente de ‘Les Amis du Plateau’, umaassociação fundada pelo próprio, juntamente com alguns amigos daquela época, com quepartilhava as suas vivências.Aquela associação nasceu com o objectivo de reunir os amigos e colegas do tempodo Bidonville, e deixar a marca da emigração portuguesa através de um pequeno monumento e um documentário! Passados quatro anos de existência, os resultados estãoà vista de todos. Em vez de um simbólico, nasceu em Champigny um grandioso monumento, um livro detalhado já editado… e os preparativos já começaram para a realização de um filme.

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A Portugal Magazine esteve à conversa com Valdemar Francisco, o presidente e fundador da associação Les Amis du Plateau, que está passo a passo a caminhar para o sucesso da missão a que se propôs… deixar patente para a geração actual e as geraçõesvindouras, a marca e o valor da emigração portuguesa em França, e no mundo.

Recorda-se da sua chegada a França?

Recordo-me muito bem! Para mim era tudo novidade e tudo muito lindo. Cheguei com seis anos e meio… e foi aí que tive os meus primeiros sapatos, para vir para França. Isto em princípio de 1960, há mais de 57 anos. Não vim logo para o Bidonville, mas sim para Villiers-sur-Marne. O meu pai alugou uma casa, e como era pintor, limpamos a casa toda… e quando aquilo já estava pronto, os filhos do senhor que tinha alugado a casa ao meu pai, disseram que tinham mudado de ideias e que afinal iam vendé-la. Foi aí que fomos para o Bidonville de Champigny. Na altura, tive sorte, porque não ficamos na zona da lama.

O que é que mais o marcou nessa época?

O que me ficou bem assente na memoria foi chegar à Gare de Austerlitz e ver aquilo tão grande e depois ver nos cafés aquelas máquinas de gira-discos, as jukebox… as bancadas no mercado de Villiers, recheadas de peixe. Os meus olhos ficaram maravilhados!

Ainda guarda amigos do Bidonville, nos dias de hoje?

Tenho muitos amigos dessa época. E ainda mais, desde que fundei a associação Les Amis du Plateau. A vida fez com que eu fosse trabalhar para longe, e mais tarde, depois de alguns anos, trabalhei bastante no mundo associativo. Eu tinha feito uma promessa de que quando tivesse tempo, faria algo para aquele senhor Louis Talamoni. Que foi um homem muito humanista.Lembro-me, quando em criança, ele falou comigo, como se eu fosse um adulto, e isso marcou-me muito.

Como foi a sua adolescência?

Eu gostava de ter sido arquitecto, mas não foi possível. O meu pai morreu, quandoeu tinha 12 anos. E pronto, já sabia que não podia seguir estudos. Fiz a escola enquanto era obrigatório, mas mesmo assim perdi muito tempo para ir ganhar algum e ajudar a minha mãe. Nas férias sempre trabalhei. Trabalhei também muitos anos no mercado de Villiers, a vender charcutaria, fruta… e depois já vendia discos, sobretudo portugueses! Isso foi uma temporada.Depois pedi à minha mãe a emancipação. Ela aceitou e eu dirigi-me ao tribunal para obter a emancipação, que dava a maioria aos 18 anos em vez de aos 21. Fiquei na mesma com nacionalidade portuguesa, para também não fazer a tropa aqui. E foi assim que fui andando e decidi comprar umas ruínas, para fazer uns apartamentos, no departamento 91.Comprei essas ruínas, antes de ter carro. Quando somos jovens a prioridade é o carro, mas depois é “chapa vem, chapa gasta”. Fiz um crédito e trabalhava durante o dia para uma empresa, e à noite, sábados, domingos e feriados, ia para lá trabalhar nesse imóvel. Que resultou em seis apartamentos.

Quando é que nasce a associação Les Amis du Plateau?

Depois de uma vida de trabalho, às vezes vinha ao mercado de Villiers e havia uns rapazes que andavam à minha procura, já há muitos anos. Eu tinha muitos camaradas na escola. E então, uma vez entramos em contacto e num evento de carros antigos, encontrei-me com vários colegas. Fomos mantendo o contacto… e como já tinha a intenção de fazer um monumento e um documentário, para não deixar cair no esquecimento e deixar registado toda essa fase da emigração. A associação foi fundada em Outubro de 2013. Está com quatro anos agora. Eu fui o fundador e sou também o presidente. Somos vários administradores, para cada qual poder viver a sua vida normalmente, e quando não poderem uns, podem outros tratar dos assuntos. É uma coisa que requer bastante tempo e empenho, da qual estou muito orgulhoso. Mas quero passar a pasta de presidente, e ficar como presidente fundador ou presidente de honra. Mas gostava de trazer jovens, para dar continuidade ao trabalho queestá a ser feito.

Sobre o monumento do Plateau… Como surgiu esse projecto?

Quanto a esse projecto, é verdade que já o tinha em mente há muito tempo. Mas não era uma coisa tão grandiosa. A minha ideia era homenagear o Louis Talamoni, actual presidente da câmara, nessa altura, comunista. Um homem de garra, que ajudou muito osportugueses! A ver se desmantelava o Bidonville. Porque chegou-se ao ponto de que já não se podia fazer nada… aquilo era tão rápido! As pessoas chegavam de autocarro, de táxi, carro… de todo o lado! Chegamos a ser mais de 20 mil pessoas.E esse senhor que sempre quis desmantelar aquele local, conseguiu também trazer condições, para quem lá morava. Lutou muito por isso, e deu-nos uma grande ajuda. Distribuía botins, mandou vir água através das fontes paga pela câmara. Mandou por electricidade e esgotos… apanhar os resíduos. Tentou organizar aquilo como se fosseuma vila.Por isso… o monumento que eu gostava de fazer era uma coisa mais reduzida, pois estava a contar fazé-lo sozinho. Depois aproximei-me da família do Talamoni, e também da câmara, para explicar a minha ideia e todos ficaram entusiasmados.Fui ter com o escultor, que é italiano (Louis Molinari). E houve tanto empenho, que as coisas proporcionaram-se de forma diferente, muito maior!Pedi a colegas se me davam uma ajuda de mecenato, mas queria que fossem só portugueses, a fazer esta homenagem.Entendi que tinha de homenagear este homem e ao mesmo tempo agradecer aos moradores de Champigny e à própria França. Porque além de tudo, a França permitiu-nostrabalhar e ganhar a nossa vida, proporcionando-nos uma vida diferente, daquela que teríamos, certamente, em Portugal. E foi com isso tudo, que se proporcionou este grande monumento. Por exemplo, escolhemos os livros por causa das milhares de histórias que ali se passaram. Decidimos fazer também aquelas colunas de tijolos, com as esferas em cima, para mostrar a união dos portugueses, por todo mundo. Estão lá 2176 tijolos, com as respectivas assinaturas.Depois demos a conhecer o nosso projecto às entidades portuguesas, como o Cônsul e o Embaixador, que ficaram todos contentes e as coisas foram acontecendo…

Quanto tempo demorou a concretização do projecto? Desde a preparação, até à apresentação…

Só a preparação foi cerca de um ano e meio. Depois, tratar das licenças e a papelada, mais um bocado. No total foram cerca de dois anos.

Como foi organizada a presença do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República?

Em França, e em Portugal também, acontece que não havia muito reconhecimento dos emigrantes.Eu já tinha tido oportunidade de encontrar o Prof. Marcelo. Sou administrador da CCIFP (Câmara do Comércio e Industria Franco-Portuguesa) e conheço muita gente. E certa altura, tive a oportunidade de lhe propôr de assinar um tijolo. E nessa altura disse-lhe, “depois teremos de o convidar a vir cá”. Na altura, ainda nem andava em campanha para a presidência da República.Entretanto cruzei-me novamente com o Prof. Marcelo, já enquanto Presidente da República, onde lhe relembrei que seria interessante ter a presença dele na data da inauguração. Ao que ele me respondeu: “Sim, depois fazemos isso no 10 de Junho”. E eu pensei… bem, o homem deve andar mesmo cansado, pois nessa data celebra-se o Dia de Portugal. E foi assim… se bem que decidimos que seria melhor fazer a inauguração nodia 11, pois no dia anterior ele tinha de ir fazer as comemorações em Paris, e o tempo seria escasso. E foi assim…Estive também na festa da Rádio Alfa com os tijolos, onde assinou também o actualPrimeiro-ministro de Portugal, António Costa, e pouco a pouco fomos adiantando o trabalho.Depois fomos a Portugal. Mandamos duas paletes de tijolos e andamos lá em algumas festas, como no Leiria Dancefloor. Fomos de norte a sul de Portugal visitar algumas pessoas que conhecíamos, ligados ao Bidonville, para assinarem também os tijolos.Fizemos também alguns eventos só para isso, para as pessoas assinarem e dar a conhecer o projecto.A obra foi-se proporcionando cada vez maior… e estamos todos orgulhosos disso.E isto também é uma obra que é para ficar para a eternidade. Mesmo os jornais francesese a comunidade francesa ficou surpreendida e agradada. Foi uma honra também para a França ter o reconhecimento e o agradecimento dos portugueses, em França.

Como foi a fase de apresentação do projecto, às entidades francesas?

O que fizemos foi dirigirmo-nos à Câmara e dar também a conhecer com o mundo associativo. No início não era esta a localização que tínhamos em mente devido a algumas questões técnicas que nos iriam atrasar o trabalho… Até que nos foi proposta a localização actual, que nos agradou, visto que está muito bem localizada. Só é pior para as oliveiras que estão em volta do monumento, porque estão num terreno mais descampado. E eu tinha medo que as oliveiras gelassem, com o frio. Mas não gelaram e já lá há umas azeitonas, que serão apanhadas, de forma simbólica, juntamente com o magusto no dia 11 de Novembro, que é também feriado cá em França. Também no dia 14 de Julho é feriado em França e como há o costume de deitar fogo-de-artifício, estamos a ver se conseguimos que o façam um pouco mais para cima, junto do monumento, para trazer mais vida à obra.

A nível de investimento… Como conseguiu as ajudas?

A ajuda foi só da comunidade. Apenas pedimos ajuda às empresas de portugueses em França. Pedimos ajuda sob a forma de mecenato. E para não haver 50, houve 22 mecenas, que estão mencionados nos livros. Pessoalmente, também fiz a minha contribuição. Foram coisas muito dispendiosas, até mesmo na apresentação, mas foi uma coisa em grande! E estou muito orgulhoso das coisas terem sido assim e quero agradecer a todos os que aderiram ao projecto e me permitiram fazer isto. Queria sublinhar também e agradecer pela minha condecoração. Coisa que não estava nada à espera! No dia da inauguração fui condecorado com o grau de comendador.

Pessoalmente, como se sente, cada vez que olha para aquela obra?

Sinto um orgulho enorme em ter conseguido uma obra tão grande e ter conseguido fazer aquilo a que me tinha proposto. É muito melhor! Está bem melhor do que eu tinha em mente. Foi uma conquista pessoal e o reconhecimento que agora vejo… foi importantíssimo! Mesmo para aos utentes daquele parque, tivemos sempre o cuidado de explicar o porquê da obra. E salientar que não custou nem um euro à França. E eles ficavam admirados. Estou mesmo muito orgulhoso!

Como surgiu a ideia de fazer o livro?

A ideia de fazer o livro surgiu na altura do discurso do António Costa. E eu tinha lhe lançado um desafio. Disse-lhe: “Espero que haja um antes 11 de Junho de 2016… e um depois. Espero que estejamos aqui para curar duas feridas.” Que é o não reconhecimentodos emigrantes, pelos portugueses em geral. E o não reconhecimento, em França. Naquele dia foi o reconhecimento dos portugueses, em França, de todos os portugueses emigrados pelo mundo inteiro. E isso é importantíssimo ficar marcado. E decidi fazer então o livro, acompanhado pelo DVD. E lá estão os discursos, onde o Primeiro-ministro e o Presidente da República referem que os emigrantes são tanto ou mais portugueses do que os que estão no país. E eu compreendi isso… Pois disseram isso no sentido de que nós sentimos muita mais falta de Portugal, do que os portugueses no país. Decidi fazer então o livro, que teve muito sucesso. O objectivo do livro é fazer conhecer, e deixar tudo registado. E tem também outro intuito, que foi de angariar fundos para levar a Portugal os professores que nos deram aulas aqui, nos anos 60. Para eles conhecerem Portugal e ir ao encontro dos alunos que tiveram.

O que podemos encontrar ao longo das páginas do livro?

Ao longo daquelas páginas as pessoas vão perceber o porque de ter feito aquele monumento. Vão encontrar testemunhos, no prefácio, do Presidente da República. O de Pedro Morais Cabrais, embaixador de Portugal, em França… e de outras figuras de relevopara a comunidade portuguesa em França. O livro tem 224 páginas e vai também com um DVD, com mais conteúdo interessante para o testemunho deste tema. O livro vai depois ser também distribuído por vários locais,para ficar como referência histórica, como museus, casas de cultura e outros locais.Na altura em que aconteceu aquela desgraça em Pedrógão Grande, o livro estava em fase de encadernação… e aproveitei para mandar preparar uma edição especial. Uma edição de solidariedade, de 300 unidades, para vender e oferecer a receita total.

Agora… o próximo passo é a realização de um filme, certo? Pode adiantar alguma novidade sobre este assunto?

Sim… A ideia era fazer um documentário. Pedi a ajuda a um rapaz, da área, Cristóvão Fonseca e expliquei-lhe a minha ideia. Depois de lhe contar, soube que ele também gostava de fazer algo parecido, visto que os pais também são portugueses. E eledisse-me: “Se há um filme que eu tenho de fazer, é esse!”. Então decidimos fazer o filme. Este ano foi feita a primeira edição do Festival da Sardinha. É uma data para manter? Sim! Foi óptimo. Quando se fala de Portugal fala-se também das sardinhas. E em Junho a sardinha já é boa. E aquela vila de Neuilly-sur-Marne tem ali um espaço lindíssimo, onde se pode passar um dia em beleza. E o que nós queríamos era fazer ali uma festa portuguesa, mas diferente… vocacionada também para as crianças. Porque as festas, geralmente são só para os grandes. Ali havia a sardinha, claro, mas também haviamuita animação para as crianças! Tudo isso, grátis. O Festival da Sardinha é para passar o dia em família, e para os pais ficarem descansados com as suas crianças. Agora estamos a ver se conseguimos geminar essa vila, que ainda não tem geminação com Portugal, com uma vila portuguesa que tenha como costume a pesca da sardinha.A Portugal Magazine agradece a disponibilidade do entrevistado, assim como a cedência do espaço, para a realização desta entrevista, por parte do restaurante Pedro Poulets, sediado na Queue en Brie. Um espaço agradável e acolhedor, onde estivemos à conversa com Valdemar Teixeira.A apresentação do livro “o Monumento – O dever da Memória” será feita no dia 11 de Outubro, em Lisboa, na presença de várias entidades de relevo nacional, como o actual presidente da República Portuguesa, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.

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